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  Doenças Relacionadas a Edificações

Dick Menzies, M.D. e Jean Bourbeau, M.D. 

The New England Journal of Medicine - Vol. 337, n°21

Os últimos 30 anos, desenvolveu-se um novo ecossistema criado pelo homem — o ambiente interno controlado, revestido da carcaça externa vedada dos modernos edifícios comerciais. Este novo ambiente tem um potencial considerável de afetar a saúde pública, devido ao fato de mais da metade da força de trabalho adulta da América do Norte e da Europa Ocidental trabalharem em escritórios ou ambientes não industriais "semelhantes a escritórios".1

O ambiente interno dos modernos edifícios comerciais pode ser afetado por seus ocupantes, suas atividades de trabalho, equipamentos, plantas, mobiliário, materiais de construção, sistemas de ventilação e pela poluição do ar exterior. Na grande maioria dos edifícios, este ambiente complexo é controlado por um ou dois técnicos que monitoram os sistemas altamente automatizados de aquecimento, ventilação e ar condicionado. Estes técnicos não têm nenhum modo de medir os níveis internos de poluição do ar, e têm pouquíssimo contato direto com os ocupantes do edifício.

Nas duas últimas décadas, surgiu um grupo de problemas de saúde relacionados a este ecossistema — denominados doenças relacionadas a edificações. Neste artigo, tentamos fornecer informações a profissionais de saúde que estejam avaliando trabalhadores com problemas de saúdes que possam estar relacionados a este ambiente de trabalho. As evidências citadas foram restringidas a descrições de surtos nos quais um agente causador pôde ser identificado; estudos baseados em populações de trabalhadores em edifícios, e manipulações experimentais de exposição a substâncias presentes no ambiente de escritórios.

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DEFINIÇÕES

Neste artigo, o termo "doenças relacionadas a edificações" será usado para definir doenças surgidas em edificações não industriais ou residenciais, das quais a maioria são os edifícios comerciais.

Dos Departamentos de Medicina e Epidemiologia e Bioestatística, Montreal Chest Institute, e Unidade de Epidemiologia Respiratória, McGill University — ambos em Montreal. Enviar solicitações de reimpressão ao Dr. Menzies na Respiratory Epidemiology Unit, McGill University, 1110 Pine Ave. W., Montreal, QC H3A 1A3, Canada.
©1997, Massachusetts Medical Society

O termo "doenças específicas relacionadas a edificações" refere-se a um grupo de doenças com um quadro clínico razoavelmente homogêneo, anormalidades objetivas em avaliação clínica ou laboratorial, e uma ou mais fontes ou agentes identificáveis, reconhecidamente causadores de doenças infecciosas, imunológicas ou alérgicas. O termo "doenças não específicas relacionadas a edificações" será usado para referir-se a um grupo heterogêneo de sintomas relacionados ao trabalho — incluindo irritações da pele e das mucosas dos olhos, nariz e garganta, dores de cabeça, fadiga e dificuldade de concentração. Estas são doenças consideradas com base na ocorrência de sintomas, mesmo quando os trabalhadores afetados não possuam anormalidades clínicas ou laboratoriais objetivas e os agentes causadores não possam ser encontrados. Os sintomas podem ser considerados relacionados a edificações, mesmo que a única evidência sejam os relatórios dos trabalhadores. Evitamos o termo "síndrome do edifício doente"2, porque ele sugere que os edifícios requerem uma investigação e tratamento, enquanto os médicos são confrontados com trabalhadores individuais com problemas de saúde potencialmente relacionados ao trabalho. O termo também não é exato em sugerir que há duas populações de edifícios — doente e saudável; esta conclusão não está embasada em pesquisas epidemiológicas de trabalhadores em diversos edifícios.3-12 Além disso, a designação de "edifícios saudáveis" pode ser prejudicial, pois sugere que em tais edifícios, pode-se presumir que os sintomas dos trabalhadores afetados não estejam relacionados ao ambiente de trabalho.

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DOENÇAS ESPECÍFICAS RELACIONADAS A EDIFICAÇÕES

A Tabela 1 resume as principais doenças específicas relacionadas a edificações. A transmissão de certos agentes patogênicos pode ser aumentada em um ambiente restrito amontoado de pessoas, ou por uma taxa de circulação reduzida do ar. Um único agente causador pode resultar em surtos relacionados a edificações com manifestações bem diferentes. Por exemplo, a presença de Legionella pneumophila pode resultar na doença dos legionários, uma pneumonia com taxa de fatalidade de 10 a 15 porcento13,15, ou em febre de Pontiac, uma doença mais suave, semelhante a gripe.14,15 De modo semelhante, a pneumonite por hipersensibilidade e a febre do umidificador foram originalmente descritas como doenças distintas, mas podem coexistir e resultar de respostas imunológicas semelhantes a fungos, bactérias ou protozoários que estejam contaminando sistemas de umidificação ou de ventilação. As manifestações de ambas as doenças incluem febre, calafrios, mal-estar e a presença de.

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TABELA 1. DOENÇAS ESPECÍFICAS RECONHECIDAMENTE OU
SOB SUSPEITA DE ESTAREM RELACIONADAS A EDIFICAÇÕES*

DOENÇA

TIPO DE ESTUDO

TIPO DE EDIFICAÇÃO

FONTE EM AMBIENTE INTERNO

AGENTE OU EXPOSIÇÃO

Infecciosas

       

Doença dos legionários e febre de Pontiac

Relatórios de caso (esporádicos ou epidêmicos)

Grandes edifícios (escritórios, hospitais, hotéis)

Torre de refrigeração, ar condicionado ou umidificador, água potável

Legionella pneumophila

Doença semelhante a gripe ou resfriado comum

Estudo em seção transversal

Estudo longitudinal

Edifícios comerciais

Quartéis militares

Fonte humana

Vírus respiratório

Tuberculose

Casos indexados seguidos de estudos em seção transversal

Edifícios comerciais

Fonte humana

Mycobacterium tuberculosis

Imunológicas

       

Pneumonite hipersensível e febre do umidificador

Relatórios de caso

 

Casos indexados seguidos de estudos em seção transversal

Edifícios comerciais

 

Edifícios comerciais, fábricas

Umidificador

 

Ar condicionado, umidificador, unidade de ventilação

Diversas bactérias, fungos, actinomicetes

Aspergillus, penicillium, diversos organismos

Alérgicas

       

Dermatite, rinite e asma

Relatórios de caso

 

 

Casos indexados seguidos de estudos em seção transversal

Edifícios comerciais

 

 

Edifícios comerciais e fábricas

Poeira superficial, carpetes, roupas

 

Umidificador

Ácaros, produtos para plantas, agentes alergênicos animais, fungos

Desconhecido

Rinite

       

Urticária de contato, edema da laringe

Relatórios de caso

Edifícios comerciais

Papéis de cópia sem carbono

Resina alquilfenol novolac

Irritação

       

Dermatite, irritação do trato respiratório superior e inferior

Relatórios de caso

Relatórios de caso

Edifícios comerciais

Edifícios comerciais

Placas do teto

Fumaça de tabaco, descarga de veículos, qualquer processo de combustão

Fibras de vidro

Produtos da combustão (por ex., monóxido de carbono, dióxido de nitrogênio)

*Os dados foram retirados de relatórios de caso, estudos de casos indexados seguidos de avaliações epidemiológicas ou de estudos de campo (quando disponíveis).

anticorpos específicos ao agente microbiano. A pneumonite por hipersensibilidade tem como sintomas adicionais a tosse, compressão do tórax, dispnéia, anormalidades das funções pulmonares e, ocasionalmente, anormalidades radiográficas. Quando todos os trabalhadores expostos foram cuidadosamente examinados, houve um amplo espectro de manifestações.20-22 Por exemplo, em um grupo de 14 trabalhadores expostos a níveis de penicillium de 5.000 a 10.000 unidades formadoras de colônias por metro cúbico, a pneumonite por hipersensibilidade se desenvolveu em 1 trabalhador não fumante, houve um desenvolvimento de asma em outro trabalhador, com histórico de atopia e tabagismo, e 6 outros tiveram sintomas respiratórios não específicos.21

Os relatos de surtos de asma relacionados à exposição em edifícios comerciais são raros, embora o agente causador em tais surtos não tenha sido identificado.23,24 A exposição a agentes alergênicos comuns a ambientes fechados, como ácaros, produtos para plantas e agentes alergênicos transportados passivamente, pode ocorrer em qualquer edifício ocupado. Testes de exposição (challenge tests) com fumaça de fotocopiadoras produziram angiite25 por hipersensibilidade, e testes com papéis de cópia sem carbono produziram urticária e edema da laringe26,27 ou faringite.28

A dermatite, conjuntivite e sintomas do trato respiratório superior e inferior também representam respostas de irritação devido a exposição a agentes não alergênicos. A exposição a fibras de vidro sintéticas produziu coceiras na pele, ardência nos olhos, irritação na garganta e tosse.29,30 As fibras de vidro podem se desprender das chapas do teto através de danos físicos diretos, ou indiretamente através do movimento das placas pelas vibrações do edifício ou pelas alterações de pressão do ambiente, quando as portas são abertas ou fechadas. 29,30

Foram medidos níveis de carboxiemoglobina de 2,0 a 3,5 porcento em não fumantes expostos a concentrações de 4 a 10 ppm de monóxido de carbono em ambiente fechado. Assim, a exposição a níveis de 20 a 50 ppm, provenientes do tabagismo intenso33 ou da inspiração de fumaça de descarga32 poderiam resultar em concentrações de carboxiemoglobina de 5 a 10 porcento, o que pode diminuir a função cognitiva e o estado de alerta34, e produzir sintomas de dores de cabeça e tonteiras —

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TABELA 2. RELACIONAMENTO DE CARACTERÍSTICAS PESSOAIS, DE TRABALHO, DO AMBIENTE DE TRABALHO E DE VENTILAÇÃO DA EDIFICAÇÃO, A DOENÇAS NÃO ESPECÍFICAS RELACIONADAS A EDIFICAÇÕES ENTRE TRABALHADORES EM ESCRITÓRIOS.

CARACTERÍSTICA

ESTUDOS QUE ENCONTRARAM UMA ASSOCIAÇÃO

ESTUDOS QUE NÃO ENCONTRARAM UMA ASSOCIAÇÃO

 

NO. DE ESTUDOS

NO. DE PESSOAS TESTADAS

NO. DE ESTUDOS

NO. DE PESSOAS TESTADAS

Pessoal

       

Sexo feminino

7

23.764

1

3.948

Faixa etária mais jovem

4

17.166

2

8.450

Atopia. alergia, asma

9

23,662

0

Fumantes

Ativos

Passivos

2

3

8.433

15.017

4

2

13.944

5.338

Fatores psicossociais

7

21.762

0

Trabalho

       

Trabalho burocrático

3

9.301

2

6.489

Trabalho com terminais de vídeo

6

22.277

1

880

Trabalho com papel sem carbono

4

16.323

0

Trabalho com ou próximo a fotocopiadoras

4

10.720

1

3.948

Ambiente de trabalho

       

Escritórios de conceito aberto

2

6.489

1

3.948

Muitas pessoas em ambiente restrito

3

11.430

0

Presença de carpetes

3

8.335

1

4.943

Poeira superficial

2

7.455

2

11.986

Ruído

2

5.338

0

Edifício

       

Ventilação

Mecânica simples

Ar condicionado

3

5

8.168

26.838

2

0

12.977

Umidificação

2

9.721

1

11.627

Taxa de ventilação < 10 l/s/pessoa

3

4.959

0

o tão chamado envenenamento oculto por monóxido de carbono.35 A exposição, em ambientes fechados, ao dióxido de nitrogênio pode ocorrer como resultado da inspiração de fumaça de descarga ou de altos níveis externos do mesmo36,37, podendo causar irritação das mucosas com sintomas respiratórios e um aumento das infecções do trato respiratório. O formaldeído é reconhecido como um irritante de mucosas, mas não há surtos bem documentados de doenças relacionadas à exposição a este agente em edifícios comerciais.38

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DOENÇAS NÃO ESPECÍFICAS RELACIONADAS A EDIFICAÇÕES

Nas pesquisas de seção transversal em edifícios selecionadas sem considerar o estado de saúde dos ocupantes, até 60 porcento dos trabalhadores relataram pelo menos um sintoma relacionado ao trabalho, e 10 a 25 porcento relataram que tais sintomas ocorriam duas vezes por semana, ou com mais freqüência.6,7,9,11,12,39 As associações de tais sintomas a uma faixa etária mais jovem, sexo feminino e um histórico de atopia (Tabela 2) pode refletir respostas fisiológicas elevadas em limites mais baixos, ou uma maior exposição ocupacional.46-49 A associação dos sintomas a fatores psicossociais não significa que "o problema está na mente dos trabalhadores". Os resultados de testes psicológicos de trabalhadores sintomáticos e assintomáticos dos escritórios é semelhante51; os fatores psicossociais estão associados a doenças cardiovasculares52, e tais fatores podem ser resultantes, em vez de causarem, problemas de saúde.53

Como já analisado intensamente em outros artigos54, a exposição à fumaça de tabaco ambiental em ambientes fora do ambiente de trabalho (principalmente no lar) tem sido consistentemente associada a diversos efeitos adversos de saúde, incluindo câncer dos pulmões. Já foi sugerido55 que esta evidência deveria ser extrapolada para o ambiente de trabalho em apoio a uma proibição do fumo em tais edifícios, apesar das poucas evidências, como pode ser visto na Tabela 2.

A poeira superficial e os carpetes são reservatórios de fungos56, compostos orgânicos voláteis e ácaros57,58, que podem ser liberados quando agitados, resultando em efeitos adversos à saúde. Nenhum estudo demonstrou uma redução nos sintomas após a remoção de carpetes, embora foi demonstrado que houveram melhoras associadas a uma melhor limpeza.60,61 Os fungos e as bactérias foram implicados nas doenças relacionadas a edificações devido à associação de sintomas não específicos a indicadores de uma potencial contaminação microbiana, como muita umidade4,57,62, poeira superficial3,10, carpetes3,10,43 e ar condicionado8,9,11,44. Microorganismos, suas toxinas ou ambos foram detectados em altas concentrações em locais com danos por infiltração de água63, além dos sistemas de aquecimento, ventilação e ar condicionado — ou em serpentinas de refrigeração64, filtros65, dutos66,67, umidificadores,24 aparadores de óleo64 e unidades de refrigeração do ar.19,21,64 No entanto, os níveis de micróbios no ar têm sido

TABELA 3. ASSOCIAÇÃO DE DOENÇAS RELACIONADAS
A EDIFICAÇÕES A FATORES AMBIENTAIS MEDIDOS

VARIÁVEL (UNIDADE)

TIPO DE ESTUDO

NÍVEL NO QUAL NÃO HÁ SINTOMAS ASSOCIADOS

NÍVEL NO QUAL HÁ SINTOMAS ASSOCIADOS

   

NÍVEL MÉDIO

FAIXA

NÍVEL MÉDIO

FAIXA

SINTOMA

Temperatura (°C)

Observação em campo

23,0

22,0-24,4

23,0

21-26

Dores de cabeça, fadiga

       

23,3

21-26

No. Total de sintomas relatados

Umidade relativa (%)

Câmara

50

50-80

18

 

Olhos, nariz

   

10

10-70

     
   

9

9-50

     
 

Observação de campo (longo prazo)

   

>40

10-20

Mucosa

sistêmico

Fungos (unidades de formação de colônias/m³)

Observação de campo

32

0-111

97

2-978

Nariz, garganta, pele

   

27

2-200

     
   

45

28-75

     
   

14

8-17

     
   

10

1-100

     

Bactérias (unidades de formação de colônias/m³)

Observação de campo

574

120-2100

22*

10-33*

Nº total de sintomas relatados

   

342

80-961

     
   

42

25-240

     

Compostos orgânicos voláteis (µg/m³)

Câmara

   

5.000

 

Mucosas

       

25.000

 

Mucosas, dores de cabeça, fadiga

 

Observação de campo

220

30-3930

1247

 

Mucosas, sistêmico

   

70

3-740

941

160-2353

Mucosas

   

834

100-2630

380

50-1380

Mucosas, sistêmico

Poeira (µg/m³)

Observação de campo

30

6-110

16

8-24

Olhos

       

22

13-29

Sistêmico

       

133

10-962

Olhos

Formaldeído (µg/m³)

Observação de campo

36

12-60

1.044

140-1920

Olhos, dores de cabeça, mucosas, fadiga

   

11

0-30

31

11-59

 
   

40

0-80

   

Dores de cabeça, mucosas, fadiga, pele

Monóxido de carbono (ppm)

Observação de campo

4,5

       
   

3,9

2-5,5

     

* O valor refere-se apenas a bactérias gram-negativas, uma vez que somente bactérias gram-negativas foram associadas aos sintomas.

baixos, e associados somente de forma inconsistente a sintomas em estudos de campo, como mostrado na Tabela 3.44,57,72,75

Os compostos orgânicos voláteis são produzidos por uma ampla variedade de fontes, incluindo materiais de construção ou mobiliário novos (são responsáveis pelo "odor de carro novo"), agentes de limpeza, tintas, solventes e equipamentos como fotocopiadoras.58 Em três estudos cegos de câmara simples (single-blind chamber), a exposição controlada a uma mistura de compostos orgânicos voláteis, encontrados normalmente em ambientes de escritórios, resultou em irritação de mucosas (Tabela 4).49,77,78 Entretanto, as concentrações de compostos orgânicos voláteis usados (5000 e 25.000 µg/m³) eram muito mais altas que os níveis detectados na maioria dos estudos de campo (Tabela 3)50,57,74,76,79, e não há estudos de exposição controlada a compostos orgânicos voláteis nas concentrações encontradas normalmente no ambiente de escritório.

A controvérsia relacionada a taxa de ventilação (definida como a quantidade de ar externo fornecido ao ambiente interno) foi em grande parte resolvida por uma síntese recente.78 Descobriu-se que prevalência de sintomas tem sido mais alta em edifícios com um fornecimento de ar externo menor que 10 l/s/pessoa6,7,39,41, e aumentos experimentais em ventilação reduziram os sintomas (com uma exceção84), caso as taxas de ventilação mínima fossem abaixo de 10 l/s/pessoa, mas não tiveram efeito algum com taxas de ventilação mais alta.42,82,89 Conseqüentemente, as alterações de ventilação influenciam fortemente os níveis de poluentes em ambientes fechados quando a ventilação está em níveis baixos, mas têm muito menos efeito com taxas de ventilação em níveis mais altos.

Em resumo, diversos fatores pessoais parecem estar associados a doenças não específicas relacionadas a edificações, possivelmente por indicarem uma maior susceptibilidade. Os sintomas também estão associados a marcadores de exposição individual, como o uso de papel sem carbono, fotocopiadoras e terminais de vídeo ou à presença de carpetes e poeira; no entanto, os agentes específicos responsáveis pelos efeitos associados não foram identificados. A importância de fatores em todo o edifício, como o tipo ou a presença de ventilação mecânica6,8,,9,11 ou umidificação, permanece obscura. Os estudos visando examinar estes fatores foram confundidos pelas diferenças entre os edifícios nas características dos ocupantes ou de seu trabalho, e os

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TABELA 4. EFEITOS DAS INTERVENÇÕES EXPERIMENTAIS DE
DOENÇAS NÃO ESPECÍFICAS RELACIONADAS A EDIFICAÇÕES

VARIÁVEIS QUE PODEM SER MEDIDAS

REDUÇÃO EM SINTOMAS

NENHUMA ALTERAÇÃO NOS SINTOMAS

 

Nº DE CASOS

NÍVEL MÍNIMO

NÍVEL PÓS-INTERVENÇÃO

Nº DE CASOS

NÍVEL MÍNIMO

NÍVEL PÓS-INTERVENÇÃO

Temperatura (°C)

339

 

1,5°C a menos

     

Umidade relativa (%)

339

25

40

8

9

50

 

12

18

50

     
 

211

24

33

     

Ventilação do ar exterior (l/s/pessoa)

940

<7,5

25

339

12

24

       

1546

14

30

       

75

6

20

Ionização (íons negativos/cm³)

339

60

26.000

77

9500

6500

INTERVENÇÕES QUE NÃO PUDERAM SER MEDIDAS

INTERVENÇÃO EFICAZ

INTERVENÇÃO INEFICAZ

 

RESULTADO

RESULTADO

Limpeza da estação de trabalho

Redução dos sintomas

Limpeza do sistema de aquecimento-ventilação-ar condicionado

Sintomas inalterados

Controle pessoal sobre a ventilação

Redução dos sintomas

Aumento de produtividade

Filtros de ar portáteis

Sintomas inalterados

resultados podem ser parciais devido à consciência dos ocupantes e sua atitude quanto ao estudo. Embora a prevalência de sintomas tenha sido consistentemente associada à temperatura e umidade42,68,82, este não foi o caso para os níveis medidos de concentrações químicas e microbianas, apesar das evidências indiretas implicando estes fatores. Esta falta de associação pode refletir os agentes múltiplos presentes, sua variabilidade espacial e temporal e o fato de que os métodos atuais de medição são dispendiosos e insuficientemente precisos para os baixos níveis normalmente presentes em ambientes de escritório.

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SÍNTESE DAS EVIDÊNCIAS QUE DIZEM RESPEITO A DOENÇAS RELACIONADAS A EDIFICAÇÕES COMERCIAIS

As doenças não específicas relacionadas a edificações podem ser explicadas por três fenômenos: Um amplo espectro dos limites de resposta em qualquer população (suscetibilidade), um espectro de resposta a qualquer agente dado e a variabilidade de exposição dentro de grandes edifícios comerciais.

Os sintomas podem se desenvolver em pessoas expostas a agentes em concentrações acima de seu limite de resposta. Como mostra a Figura 1, entre adultos saudáveis existe uma faixa ampla no limite para a detecção e efeitos irritantes do formaldeído90,91; o mesmo foi demonstrado para os compostos orgânicos92 voláteis e a fumaça de tabaco80 no ambiente. Uma variabilidade semelhante do limite foi demonstrada para as respostas fisiológicas à temperatura47,48, ao ozônio, sulfatos e particulados93, e à endotoxina94. Embora estes limites variem visivelmente entre questões específicas, há muito menos variação nos valores para a mesma questão. Os limites de resposta são mais baixos entre trabalhadores com asma93, entre aqueles com sintomas anteriores relacionados com edificações49, e entre os do sexo feminino46,48 ou relativamente jovens46,48. Adicionalmente, os limites de resposta fisiológica a agentes alergênicos, compostos orgânicos voláteis e fumaça de tabaco no ambiente são reduzidos pela exposição concomitante ao ozônio95, temperatura mais alta96 e umidade mais baixa69, respectivamente.

Embora as doenças especificas relacionadas a edificações sejam inicialmente identificadas quando diversos trabalhadores apresentam manifestações clínicas e anormalidades objetivas semelhantes, uma descoberta importante porém deixada de lado nos surtos tem sido o amplo espectro de resposta clínica aos mesmos agentes.20-22 Normalmente, tem havido uns poucos trabalhadores afetados seriamente por anormalidades clínicas específicas. Entre outros trabalhadores expostos, alguns (freqüentemente mais que o número de casos iniciais sentinelas) têm tido leves anormalidades objetivas, como leucocitose ou alterações nas funções pulmonares, enquanto outros têm tido sintomas não específicos, e alguns são assintomáticos, apresentando entretanto anticorpos específicos.20-22 Sem os casos sentinelas, a causa dos sintomas nos outros trabalhadores afetados poderia ser ignorada, ou o surto poderia ser atribuído a uma síndrome de edifício doente.

Os modernos arranha-céus comerciais são projetados para oferecer um ambiente interior estável e uniforme, mas há uma considerável variação espacial e temporal no ambiente real. A variação temporal resulta das alterações no fornecimento de ar exterior e dos níveis de poluição do ar exterior, bem como das mudanças de ocupantes e suas atividades.36,37 A variação espacial é resultante das

Figura1. Limite para a Resposta à Exposição Controlada ao Formaldeído.

A figura mostra o limite absoluto para a detecção do odor de formaldeído, da concentração na qual o odor de formaldeído foi detectado em 100 porcento das exposições (challenges) e da concentração de formaldeído causadora de irritação nasal.

diferenças de fontes locais de poluentes — os ocupantes, suas atividades de trabalho, equipamento e mobiliário, e materiais que absorvem e posteriormente reemitem contaminantes58 — e da variação da eficácia local da ventilação, devido a reformas e ao desgaste normal do sistema de ventilação. Esta variabilidade pode criar microambientes bem diferentes, por toda parte, um grande edifício.75,98

Caso haja uma variação independente na concentração de diferentes agentes dentro de um grande edifício comercial, e na suscetibilidade dos trabalhadores a estes agentes, os trabalhadores podem ser individualmente sintomáticos devido a exposição localizada a um ou mais agentes a níveis que excedam seu limite de resposta. Esta hipótese é difícil de ser testada, devido ao grande número de agentes e sintomas, e à dificuldade de caracterizar a exposição precisamente. Entretanto, ela poderia explicar por que as pesquisas epidemiológicas falharam em identificar as relações entre os fatores ambientais medidos em um número limitado de locais de trabalho, e os sintomas de todos os trabalhadores dentro desses edifícios.12,57,99,100 Este conceito também fornece um motivo lógico para mover os trabalhadores afetados para outro local de trabalho — uma solução simples que nunca foi formalmente avaliada. O controle pessoal da ventilação iria capacitar os trabalhadores a atenuar as condições adversas locais, mesmo que eles não soubessem o que os estivesse afetando. Esta abordagem tem sido associada a redução de sintomas12,86 e aumento de produtividade.87

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UMA ABORDAGEM AO PACIENTE

Dada a complexidade do ambiente fechado de edifícios comerciais e dos numerosos fatores contributivos, é difícil especificar uma abordagem padronizada simples a um trabalhador de escritório com um problema de saúde potencialmente relacionado ao trabalho. Entretanto, certos princípios podem ser enunciados.

Um cuidadoso registro de histórico é um primeiro passo essencial. Os trabalhadores podem não reconhecer o ambiente de trabalho como a fonte de seus sintomas; senso assim, é importante obter uma descrição completa do início e do curso dos sintomas, e sua relação temporal ao ambiente de trabalho. Por outro lado, caso os trabalhadores atribuam seus sintomas ao ambiente de trabalho, também é importante excluir outras causas não ocupacionais.

O exame físico costuma ser normal em doenças não específicas relacionadas a edificações, mas as conclusões podem ser anormais em doenças específicas. Pode ser apropriado realizar investigações adicionais, para identificar entidades específicas; são exemplos disso os exames de radiografia do tórax e de função dos pulmões, em busca da pneumonite por hipersensibilidade ou asma, e os exames da pele e análises de serum IgE, em busca de manifestações alérgicas.

Caso se suspeite de uma doença relacionada a edificações, uma visita ao local de trabalho é um valioso ponto de partida na avaliação do ambiente de escritórios. Uma equipe incluindo o médico, um higienista industrial e engenheiros estará melhor capacitada a identificar e resolver os problemas neste complexo ambiente interno. Os clínicos devem estar familiarizados com oficiais de saúde pública ou ocupacional ao nível municipal, estadual ou federal, que possuam experiência na avaliação de problemas semelhantes. Uma vantagem importante de se entrar em contato com essas autoridades é a de que elas recebem relatórios de outros trabalhadores afetados no mesmo edifício. Tais relatórios devem precipitar uma avaliação ambiental mais completa, e podem capacitar os trabalhadores a receberem compensações ou benefícios semelhantes. Pode ser indicado realizar testes de amostras do ar ambiental caso se suspeite de contaminantes específicos de ambientes fechados, mas isto é dispendioso e requer considerável experiência em medição e interpretação.

As intervenções que se demonstraram atenuantes de doenças não específicas relacionadas a edificações (Tabela 4) devem ser consideradas, embora possam não ser aplicáveis a todas as situações. Outra solução possível (embora não testada) para o trabalhador com sintomas não específicos e inexplicados seria alterar seu microambiente de trabalho mudando-o de local de trabalho, mesmo dentro do mesmo edifício.

CONCLUSÕES

Os sintomas de doenças não específicas relacionadas a edificações são comuns; sua heterogeneidade sugere que eles não representam uma única desordem. Embora haja poucas evidências diretas convincentes que impliquem agentes causadores específicos, há evidências indiretas suficientes para apoiarem diversas recomendações. Por exemplo, parece prudente manter um fornecimento de ar externo superior a 10 l/s/pessoa; selecionar os materiais de construção, mobiliário e equipamentos que possuam menos probabilidades de liberarem poluentes como formaldeído ou compostos orgânicos voláteis; assegurar a manutenção e limpeza adequadas, e evitar materiais que possam agir como substratos para a proliferação de micróbios ou ácaros.

Os trabalhadores no ambiente interno dos edifícios comerciais compreendem mais da metade de toda a força de trabalho dos países industrializados. Uma parcela substancial tem sintomas no trabalho. Dada a enorme população aparentemente afetada e nossa compreensão atualmente limitada dos efeitos desse ambiente sobre a saúde, necessitamos com urgência de maiores pesquisas. A suscetibilidade deveria ser avaliada em estudos experimentais de exposição a poluentes individuais e múltiplos, a concentrações encontradas comumente no ambiente dos escritórios. As intervenções propostas devem ser avaliadas em testes apropriados, que incorporem definições de caso, questionários e métodos de medição ambiental normalizados. Tais estudos poderiam auxiliar a assegurar que o ecossistema criado pelo homem dentro dos modernos edifícios comerciais sejam um ambiente de trabalho saudável.

Com o apoio das bolsas Chercheur-Boursier Clinicien do Fonds de la Recherche en Santé du Quebec (ao Dr. Menzies) e do Montreal Chest Institute Research Centre (ao Dr. Bourbeau).

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Agradecemos aos Drs. Margaret Becklake, Chantal Brisson, Kevin Schwartzman e Sverre Vedal por sua revisão crítica do manuscrito, e à Mme. Sylvie Ouimet por sua assistência secretarial.

20 de novembro de 1997

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