O
milênio que inaugura uma nova era para a humanidade
descortina um surpreendente cenário de conquistas tecnológicas
em espiral ascendente, com a decifração do código
genético e, por outro lado um degradante e cruel processo
bélico em marcha.
A
tão propalada e sonhada "Era de Aquário"
representou uma constante busca que norteou a imaginação
e os sonhos da humanidade. Pois assim se fez o fascínio
que despertou no espírito humano, a chegada do milênio
- do fogo das escrituras sagradas do Apocalipse às
profecias de Nostradamus, dos cartuns futuristas de Flash
Gordon a Buck Rogers, dos sonhos de Jules Verne passando pela
Jornada nas Estrelas a 2001 – Uma Odisséia no Espaço,
de Kubrick com o personagem cibernético "Hal",
um computador com "alma".
Assim
se fizeram as representações sociais deste momento
histórico, marco singular da modernidade, a grande
revolução representada pela tecnologia, que
de forma avassaladora e assustadora intervém no "modus
operandi" da sociedade, arrastando-nos a um padrão
de consumo de bens e de informação nunca dantes
visto.
E
de modo algum, trata-se de ficção é uma
história vivida em tempo real, conectado ou não
na grande rede – a internet.
Navegar
é preciso, viver não é preciso...
A realidade "virtual", paradoxalmente, conduz a
viagens através do "leme" do mouse, a lugares
e espaços onde se pode acessar, a pessoas, bens, informações,
jogos, etc. no vácuo, na ausência de mecanismos
reguladores ético-sociais.
Mares
abertos, com certos radares, é bem verdade, entretanto
este espaço é hoje acessível, sem censuras
ou regras, à disseminação nos lares,
no trabalho, a toda sorte e tipo de informação
ou de manipulação.
Existirão
limites para a relação entre eu e tu, em um
mundo dominado pela rede?
Haverá
espaço para as relações interpessoais e
a construção de idéias desenvolvidas "off-line"?
Assim
como Peter Sellers em "Muito além do Jardim"
- comédia que retratava um indivíduo que não
conseguia se desligar da televisão, onde o controle
remoto significava seu ponto de contato com o mundo, outras
formas de desajustes sociais, possíveis "internautopatias"
estão a se manifestar. O mundo de Truman...
Pois,
navegas por mares nunca dantes navegados!
Mas
o que virá por aí, capitão Kirk?
A
Revolução da Comunicação:
A
realidade será cada vez mais virtual. Tecnologias de
última geração embutem chips em objetos
do cotidiano, como relógios, canetas, brincos, anéis,
óculos; que passam a ser utilizados como meios de comunicação,
isso não será mais truque de cinema. Assim como
desapareceram os grandes computadores, os microcomputadores
no futuro deixarão de existir, microchips cada vez
mais potentes poderão "plugá-lo" com
o mundo, onde quer que você esteja. Vejam hoje o que
já acontece com a Web, ligando a internet ao telefone
celular.
Será
mesmo admirável este mundo novo – o que diria Aldous
Huxley?
Haverá
espaço para a privacidade?
Mas
a revolução irá parar por aí?
Especula-se que os tecidos poderão ser modificados
- ficando à prova de bactérias, representando
o fim dos desodorantes. Os carros poderão dispensar
os motoristas [diminuirão os acidentes de trânsito?].
No
campo da neurobiologia, recentes descobertas apontam para
a possibilidade de atuar diretamente nos circuitos de neurônios
do cérebro. A fantástica e pouco conhecida atividade
cerebral começa a abrir-se ao conhecimento, e hoje
se sabe que o cérebro não é mais aquela
estrutura rígida que por volta dos 4 anos de idade
encerraria seu desenvolvimento. O fato é que pela adição
de novas conexões entre as terminações
nervosas – os axônios, as estruturas cerebrais mantém
sua atividade e isto pode representar n possibilidades de
recuperação ou tratamento de doenças.
Os
neurocientistas poderão atuar a nível destas
delicadas estruturas e circuitos integrados e com isso, poderão
possibilitar a reabilitação de vítimas
de derrames ou de outras doenças que deixem seqüelas
motoras ou sensitivas ou quem sabe poderão ainda retardar
ao máximo a fase aguda da doença de Alzheimer.
Novas
perspectivas dentro deste horizonte poderão possibilitar
a cura da Doença de Parkinson, das lesões raquimedulares;
de distúrbios neurocomportamentais como a depressão
e a esquizofrenia e, de dificuldade de aprendizagem em crianças.
Imagina-se até que se possa interferir com conexões
cerebrais que possam ser responsáveis por determinados
comportamentos anti-sociais como o racismo.
Todavia
é no campo da biotecnologia ou da engenharia genética,
onde se fazem previsões mais notáveis. Acredita-se
que a revolução provocada pelo conhecimento
do código genético ou código da vida
provocará um impacto maior que aquele provocado pela
informática no século XX.
Mendel,
o pai da genética, não poderia imaginar os rumos
que tomariam a pesquisa dos cromossomas, genes, alelos contidos
na dupla espiral da vida – O DNA (Acido des-oxi-ribonuclêico).
A
divulgação recente do genoma humano – a decifração
ou mapeamento digital de nossos genes, descortina uma gama
imensa de possibilidades para a medicina, do mesmo modo, traz
um cortejo de novos dilemas éticos para a sociedade,
como a questão tão debatida dos clones.
Quando
as descobertas científicas se colocam a serviço
de uma determinada estrutura hegemônica, como observamos
na modernidade, os riscos de sua utilização,
de seu modus operandi, precisam ser questionados e ser balizados
por uma nova ética.
O
que fazer? Como fazer? Para quem?
Estas
questões que se aplicam ainda hoje, com propriedade,
por exemplo, em relação à questão
nuclear: Energia atômica, usina nuclear, para que? Para
quem? Para o bem e para o mal, provocando a dizimação
de milhares de pessoas em Hiroxima, Nagasaki, Tchernobyl ou,
agindo como suporte terapêutico do câncer. O fato
é que a aplicação para fins bélicos
precedeu a utilização para fins pacíficos,
humanitários.
Estas
perguntas e certamente outras já estão sendo
formuladas hoje e em futuro próximo direcionadas para
o domínio do código genético.
Do
DNA ao Genoma Humano
Retrospectiva de 50 Anos de Biotecnologia
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Cronologia
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Evento/Descoberta
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1943
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O
DNA pode passar o caráter hereditário
de uma a outra bactéria
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1948/50
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O
Genes tem o papel de especificar as informações
para criar as proteínas
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1951
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1ªs.
Imagens em Raios X de um cristal de DNA.
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1953
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Estrutura
do DNA (dupla hélice, com quatro bases químicas:
Adenina, Citosina, Guanina e Tiamina) por Watson e Crick,
valeu o Prêmio Nobel.
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1960
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Detectado
o RNA-mensageiro que transfere a informação
para a proteína.
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1966
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Decifrada
a linguagem do código genético. A leitura
do DNA se baseia em grupos de três letras daquelas
letras (A, C, G, T), o códon.
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1970
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A
enzima que corta o DNA. É sintetizado quimicamente
o 1º Gene.
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1972
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Produzida
a 1ª. Molécula de DNA recombinante
(passo para experimentos entre organismos diferentes),
por Paul Berg.
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1978
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A
empresa Genentech produz insulina humana recombinante
a partir de bactérias.
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1982
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Surge
1º animal transgênico, com genes que
aumentam o tamanho do camundongo.
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1983
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Criada
técnica que permite trabalhar com sequenciamento
do DNA, por Mullis.
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1984
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Inseridos
genes de uma cabra em uma ovelha, por pesquisadores
ingleses.
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1986
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Genes
de vaga-lume são enxertados em folhas de tabaco,
folhas brilham.
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1989
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Identificado
e clonado o 1º Gene, no cromossoma 7, responsável
por doença hereditária (fibrose cística).
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1990
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Começa
o projeto Genoma Humano, para identificar todos os 100
mil genes humanos e suas 3 bilhões de bases químicas.
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1993
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Um
gene produtor de plástico biodegradável
é enxertado em um pé de mostarda. A planta
transformou-se numa fábrica de plástico
(a Monsanto deverá lançar o produto em
2003).
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1997
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Anunciada
a ovelha Dolly, em Edinburg, pelo Instituto Rosslin.
O núcleo de uma célula adulta de uma ovelha
é inserido em um óvulo e o embrião
se desenvolve.
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1997
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O
Brasil inicia o seu primeiro genoma, o de Xylella. Criadores
da Dolly clonam 2 carneiros, que serão usados
como "reservatórios" de proteínas.
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1999
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Concluído
o genoma da mosca de frutas (drosófila).
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2000
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Anunciado
o mapeamento do genoma humano.
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Os
transgênicos
Vejamos
um crônico problema social e universal: a fome. No pós-guerra
com a utilização maciça de agrotóxicos,
os programas da FAO órgão da ONU – Organização
das Nações Unidas prometiam erradicar a fome,
mas afinal o que acabaram por trazer? Não solucionaram
a fome e ainda deixaram um grande contingente de pessoas intoxicadas
pelos pesticidas, especialmente os organoclorados como o DDT.
O
escritor norte-americano Jeremy Rifkin vem se destacando como
um defensor da natureza e da raça humana. Nos anos
80, ele comandou uma campanha em seu país para impedir
que se aplicassem hormônios em vacas para aumentar a
produção leiteira. Lançou recentemente
o livro: "O Século da Biotecnologia", onde
aborda com propriedade os males da atual revolução
biotecnológica.
A
"Fundação sobre Tendências Econômicas"
situada em Washington, sob seu comando, empreendeu uma ação
judicial, em 30 países, acusando grandes empresas produtoras
de sementes transgênicas de adotarem técnicas
destinadas a criar e manter um cartel para o controle do mercado
mundial de alimentos, através de venda de sementes
transgênicas.
Rifkin
argumenta que apenas cinco empresas no mundo – Monsanto, Novartis,
Du Pont, Astrazeneca e Aventis – controlam mais de 70% do
comércio mundial de alimentos e adverte: "nunca
antes a humanidade esteve tão despreparada para os
desafios tecnológicos que se prenunciam no horizonte".
A vida no planeta "será mais profundamente alterada
nas próximas décadas do que nos últimos
mil anos".
Rifkin
afirma que a questão central não é ficar
contra o progresso ou contra a ciência. Porém
sustenta que essas empresas, na ganância para obter
patentes e monopolizar mercados, estão brincando com
coisas sérias. Então, acrescenta: "se der
errado, quem pagará a conta?".
As
críticas de Rifkin são contundentes e representam
um alerta para o momento que estamos vivendo, seja nos modos
de produção e consumo vigentes, seja no processo
de acumulação e reordenação da
economia mundial, que aprofunda as desigualdades sociais e
empurra cada vez mais para a periferia, as economias e a soberania
dos países em desenvolvimento.
É
cada vez maior o domínio exercido pelas grandes corporações
transnacionais, que vão abocanhando, absorvendo empresas
nacionais, regionais, e impondo a sua lógica expansionista.
Deixar este terreno aberto, como um campo livre para essas
empresas representa um grande perigo para a economia mundial.
Elas
poderão dominar os segredos da natureza, controlar
patentes, inventar novas formas de vida vegetal, micro-orgânica
e animal (inclusive a humana) e tratá-las como mercadorias.
Suspeita-se que os famosos "hambúrgueres americanos"
já seriam produzidos a partir de um destas formas inventadas
de vida ou uma coisa constituída de um único
tubo digestivo, cuja única função seria
produzir a proteína modificada, com praticamente 100%
de produtividade.