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 Biotecnologia: Novas Questões
 Éticas para a Humanidade

Alberto José de Araújo, MD, M Sc.


O milênio que inaugura uma nova era para a humanidade descortina um surpreendente cenário de conquistas tecnológicas em espiral ascendente, com a decifração do código genético e, por outro lado um degradante e cruel processo bélico em marcha.

A tão propalada e sonhada "Era de Aquário" representou uma constante busca que norteou a imaginação e os sonhos da humanidade. Pois assim se fez o fascínio que despertou no espírito humano, a chegada do milênio - do fogo das escrituras sagradas do Apocalipse às profecias de Nostradamus, dos cartuns futuristas de Flash Gordon a Buck Rogers, dos sonhos de Jules Verne passando pela Jornada nas Estrelas a 2001 – Uma Odisséia no Espaço, de Kubrick com o personagem cibernético "Hal", um computador com "alma".

Assim se fizeram as representações sociais deste momento histórico, marco singular da modernidade, a grande revolução representada pela tecnologia, que de forma avassaladora e assustadora intervém no "modus operandi" da sociedade, arrastando-nos a um padrão de consumo de bens e de informação nunca dantes visto.

E de modo algum, trata-se de ficção é uma história vivida em tempo real, conectado ou não na grande rede – a internet.

Navegar é preciso, viver não é preciso... A realidade "virtual", paradoxalmente, conduz a viagens através do "leme" do mouse, a lugares e espaços onde se pode acessar, a pessoas, bens, informações, jogos, etc. no vácuo, na ausência de mecanismos reguladores ético-sociais.

Mares abertos, com certos radares, é bem verdade, entretanto este espaço é hoje acessível, sem censuras ou regras, à disseminação nos lares, no trabalho, a toda sorte e tipo de informação ou de manipulação.

Existirão limites para a relação entre eu e tu, em um mundo dominado pela rede?

Haverá espaço para as relações interpessoais e
a construção de idéias desenvolvidas "off-line"?

Assim como Peter Sellers em "Muito além do Jardim" - comédia que retratava um indivíduo que não conseguia se desligar da televisão, onde o controle remoto significava seu ponto de contato com o mundo, outras formas de desajustes sociais, possíveis "internautopatias" estão a se manifestar. O mundo de Truman...

Pois, navegas por mares nunca dantes navegados!

Mas o que virá por aí, capitão Kirk?

 

A Revolução da Comunicação:

A realidade será cada vez mais virtual. Tecnologias de última geração embutem chips em objetos do cotidiano, como relógios, canetas, brincos, anéis, óculos; que passam a ser utilizados como meios de comunicação, isso não será mais truque de cinema. Assim como desapareceram os grandes computadores, os microcomputadores no futuro deixarão de existir, microchips cada vez mais potentes poderão "plugá-lo" com o mundo, onde quer que você esteja. Vejam hoje o que já acontece com a Web, ligando a internet ao telefone celular.

Será mesmo admirável este mundo novo – o que diria Aldous Huxley?

Haverá espaço para a privacidade?

Mas a revolução irá parar por aí? Especula-se que os tecidos poderão ser modificados - ficando à prova de bactérias, representando o fim dos desodorantes. Os carros poderão dispensar os motoristas [diminuirão os acidentes de trânsito?].

No campo da neurobiologia, recentes descobertas apontam para a possibilidade de atuar diretamente nos circuitos de neurônios do cérebro. A fantástica e pouco conhecida atividade cerebral começa a abrir-se ao conhecimento, e hoje se sabe que o cérebro não é mais aquela estrutura rígida que por volta dos 4 anos de idade encerraria seu desenvolvimento. O fato é que pela adição de novas conexões entre as terminações nervosas – os axônios, as estruturas cerebrais mantém sua atividade e isto pode representar n possibilidades de recuperação ou tratamento de doenças.

Os neurocientistas poderão atuar a nível destas delicadas estruturas e circuitos integrados e com isso, poderão possibilitar a reabilitação de vítimas de derrames ou de outras doenças que deixem seqüelas motoras ou sensitivas ou quem sabe poderão ainda retardar ao máximo a fase aguda da doença de Alzheimer.

Novas perspectivas dentro deste horizonte poderão possibilitar a cura da Doença de Parkinson, das lesões raquimedulares; de distúrbios neurocomportamentais como a depressão e a esquizofrenia e, de dificuldade de aprendizagem em crianças. Imagina-se até que se possa interferir com conexões cerebrais que possam ser responsáveis por determinados comportamentos anti-sociais como o racismo.

Todavia é no campo da biotecnologia ou da engenharia genética, onde se fazem previsões mais notáveis. Acredita-se que a revolução provocada pelo conhecimento do código genético ou código da vida provocará um impacto maior que aquele provocado pela informática no século XX.

Mendel, o pai da genética, não poderia imaginar os rumos que tomariam a pesquisa dos cromossomas, genes, alelos contidos na dupla espiral da vida – O DNA (Acido des-oxi-ribonuclêico).

A divulgação recente do genoma humano – a decifração ou mapeamento digital de nossos genes, descortina uma gama imensa de possibilidades para a medicina, do mesmo modo, traz um cortejo de novos dilemas éticos para a sociedade, como a questão tão debatida dos clones.

Quando as descobertas científicas se colocam a serviço de uma determinada estrutura hegemônica, como observamos na modernidade, os riscos de sua utilização, de seu modus operandi, precisam ser questionados e ser balizados por uma nova ética.

O que fazer? Como fazer? Para quem?

Estas questões que se aplicam ainda hoje, com propriedade, por exemplo, em relação à questão nuclear: Energia atômica, usina nuclear, para que? Para quem? Para o bem e para o mal, provocando a dizimação de milhares de pessoas em Hiroxima, Nagasaki, Tchernobyl ou, agindo como suporte terapêutico do câncer. O fato é que a aplicação para fins bélicos precedeu a utilização para fins pacíficos, humanitários.

Estas perguntas e certamente outras já estão sendo formuladas hoje e em futuro próximo direcionadas para o domínio do código genético.

Do DNA ao Genoma Humano
Retrospectiva de 50 Anos de Biotecnologia

Cronologia

Evento/Descoberta

1943

O DNA pode passar o caráter hereditário de uma a outra bactéria

1948/50

O Genes tem o papel de especificar as informações para criar as proteínas

1951

1ªs. Imagens em Raios X de um cristal de DNA.

1953

Estrutura do DNA (dupla hélice, com quatro bases químicas: Adenina, Citosina, Guanina e Tiamina) por Watson e Crick, valeu o Prêmio Nobel.

1960

Detectado o RNA-mensageiro que transfere a informação para a proteína.

1966

Decifrada a linguagem do código genético. A leitura do DNA se baseia em grupos de três letras daquelas letras (A, C, G, T), o códon.

1970

A enzima que corta o DNA. É sintetizado quimicamente o 1º Gene.

1972

Produzida a 1ª. Molécula de DNA recombinante (passo para experimentos entre organismos diferentes), por Paul Berg.

1978

A empresa Genentech produz insulina humana recombinante a partir de bactérias.

1982

Surge 1º animal transgênico, com genes que aumentam o tamanho do camundongo.

1983

Criada técnica que permite trabalhar com sequenciamento do DNA, por Mullis.

1984

Inseridos genes de uma cabra em uma ovelha, por pesquisadores ingleses.

1986

Genes de vaga-lume são enxertados em folhas de tabaco, folhas brilham.

1989

Identificado e clonado o 1º Gene, no cromossoma 7, responsável por doença hereditária (fibrose cística).

1990

Começa o projeto Genoma Humano, para identificar todos os 100 mil genes humanos e suas 3 bilhões de bases químicas.

1993

Um gene produtor de plástico biodegradável é enxertado em um pé de mostarda. A planta transformou-se numa fábrica de plástico (a Monsanto deverá lançar o produto em 2003).

1997

Anunciada a ovelha Dolly, em Edinburg, pelo Instituto Rosslin. O núcleo de uma célula adulta de uma ovelha é inserido em um óvulo e o embrião se desenvolve.

1997

O Brasil inicia o seu primeiro genoma, o de Xylella. Criadores da Dolly clonam 2 carneiros, que serão usados como "reservatórios" de proteínas.

1999

Concluído o genoma da mosca de frutas (drosófila).

2000

Anunciado o mapeamento do genoma humano.

 

Os transgênicos

Vejamos um crônico problema social e universal: a fome. No pós-guerra com a utilização maciça de agrotóxicos, os programas da FAO órgão da ONU – Organização das Nações Unidas prometiam erradicar a fome, mas afinal o que acabaram por trazer? Não solucionaram a fome e ainda deixaram um grande contingente de pessoas intoxicadas pelos pesticidas, especialmente os organoclorados como o DDT.

O escritor norte-americano Jeremy Rifkin vem se destacando como um defensor da natureza e da raça humana. Nos anos 80, ele comandou uma campanha em seu país para impedir que se aplicassem hormônios em vacas para aumentar a produção leiteira. Lançou recentemente o livro: "O Século da Biotecnologia", onde aborda com propriedade os males da atual revolução biotecnológica.

A "Fundação sobre Tendências Econômicas" situada em Washington, sob seu comando, empreendeu uma ação judicial, em 30 países, acusando grandes empresas produtoras de sementes transgênicas de adotarem técnicas destinadas a criar e manter um cartel para o controle do mercado mundial de alimentos, através de venda de sementes transgênicas.

Rifkin argumenta que apenas cinco empresas no mundo – Monsanto, Novartis, Du Pont, Astrazeneca e Aventis – controlam mais de 70% do comércio mundial de alimentos e adverte: "nunca antes a humanidade esteve tão despreparada para os desafios tecnológicos que se prenunciam no horizonte". A vida no planeta "será mais profundamente alterada nas próximas décadas do que nos últimos mil anos".

Rifkin afirma que a questão central não é ficar contra o progresso ou contra a ciência. Porém sustenta que essas empresas, na ganância para obter patentes e monopolizar mercados, estão brincando com coisas sérias. Então, acrescenta: "se der errado, quem pagará a conta?".

As críticas de Rifkin são contundentes e representam um alerta para o momento que estamos vivendo, seja nos modos de produção e consumo vigentes, seja no processo de acumulação e reordenação da economia mundial, que aprofunda as desigualdades sociais e empurra cada vez mais para a periferia, as economias e a soberania dos países em desenvolvimento.

É cada vez maior o domínio exercido pelas grandes corporações transnacionais, que vão abocanhando, absorvendo empresas nacionais, regionais, e impondo a sua lógica expansionista. Deixar este terreno aberto, como um campo livre para essas empresas representa um grande perigo para a economia mundial.

Elas poderão dominar os segredos da natureza, controlar patentes, inventar novas formas de vida vegetal, micro-orgânica e animal (inclusive a humana) e tratá-las como mercadorias. Suspeita-se que os famosos "hambúrgueres americanos" já seriam produzidos a partir de um destas formas inventadas de vida ou uma coisa constituída de um único tubo digestivo, cuja única função seria produzir a proteína modificada, com praticamente 100% de produtividade.

"A grande tragédia da ciência é a escravidão de uma bela hipótese por um fato sem graça". Aldous Huxley.

A Biotecnologia se apresenta como a grande ciência deste início de milênio, com a revolução da tecnociência provocada pelos acelerados passos da tecnologia, que vem marcando de maneira assustadora as nossas vidas nestas últimas décadas,

A Engenharia Genética, nas últimas décadas vem abrindo novos horizontes, na busca e apreensão dos mecanismos de organização do sofisticado código genético, base do material genético contido na espiral do DNA – o substrato da vida. Diversas espécies animais e vegetais já tiveram seus códigos decifrados.

Assim como em outros momentos da história da humanidade, o conhecimento que fascina, encanta e aproxima o campo da ficção daquela da vida real traz ele próprio à tona, importantes aspectos ético-legais para discussão.

Um novo tratado social, através de um novo conjunto de aspectos ético-valorativos deverá ser firmado pela humanidade, pois as responsabilidades que agora se impõem emergem de um conhecimento sobre o modo como se organiza a estrutura primordial da vida, os gens.

A decifração do código genético abre as possibilidades de exploração e modificação de várias espécies, o que de um lado pode ampliar as possibilidades de melhoramento e mesmo evitar a extinção de seres vivos, mas por outro lado pode produzir aberrações que podem transformar definitivamente o destino do planeta.

Assessor de Saúde Ocupacional do Sindipetro - RJ
Mestre em Ciências em Engenharia de Produção da COPPE - UFRJ

 

 



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