Além
disso, a reestruturação produtiva em curso trouxe
em seu bojo novas metodologias de seleção, inserção
e avaliação do indivíduo no trabalho.
No novo paradigma o desempenho no trabalho idealiza como "sujeito
produtivo" aquele que ultrapassa metas, que silencia
ante a dor (do próprio e a de terceiros) e, que navega
na estrada do individualismo. A individuação
passa a ser a marca, o logotipo do sujeito bem sucedido no
trabalho. O trabalho em equipe passa a ter um valor secundário,
pois a premiação pelo desempenho é para
"apenas alguns".
O
processo de avaliação de desempenho em curso
nas empresas vem apontando nesta direção e paulatinamente
vai se escudando nesta prática para diferenciar o tratamento
dispensado a seus colaboradores, contribuindo para aumentar
as distâncias entre as pessoas e reduzindo as possibilidades
da solidariedade como um instrumento de defesa dos interesses
de classe, do coletivo.
No
contexto das relações de trabalho, as pressões
advindas deste novo enfoque gerencial conduzem a uma constante
opressão no ambiente de trabalho que é transmitida
vertical e horizontalmente entre os gerentes e os trabalhadores
em outras posições na empresa.
As
conseqüências destas tensões se fazem sentir
na vida cotidiana do trabalhador, interferindo com a sua qualidade
de vida e levando a desajustes sociais e a transtornos psicológicos
como reação de adaptação ou de
enfrentamento das situações denominadas como
"assédio moral no trabalho". Há relatos
de depressão, ansiedade e outras formas de manifestação
(ou agravamento) de doenças psíquicas ou orgânicas.
Casos de suicídio têm sido relatados, como decorrência
dessas situações.
O
Assédio Moral se revela de inúmeras formas,
gestos ou atitudes, muitas vezes dissimulados, tendo como
conteúdo nuclear o desprezo, menosprezo, esquecimento,
perseguição e a desqualificação
da vítima. Algumas vezes pode soar como uma gozação,
uma brincadeira.
A
Dra. Marie-France Hirigoyen, psiquiatra e incansável
pesquisadora francesa que recentemente esteve entre nós,
aponta que na Europa o problema é mais presente em
Empresas Estatais e Serviços Públicos. As mulheres
queixam-se mais, porém a taxa de suicídios é
maior nos homens, que sentem vergonha de expor, de admitir
o assédio moral.
Como está sendo tratado o assédio moral na Europa...
A
partir dos estudos da Dra. Marie-France Hirigoyen existe hoje
uma preocupação do Parlamento Europeu em aprovar
uma legislação específica sobre Assédio
Moral. Países como a França, Portugal, Espanha
e Bélgica já definiram uma legislação
de combate ao assédio moral.
Quais
são os resultados de Pesquisas no Brasil...
Pesquisa
da Dra. Margarida Barreto, médica do trabalho e pesquisadora
da PUC-SP constatou que 80% (oitenta por cento) dos entrevistados
sofriam dores generalizadas, 45% (quarenta e cinco por cento)
apresentavam aumento de pressão arterial, mais de 60%
(sessenta por cento) queixavam-se das palpitações
e tremores e 40% (quarenta por cento) sofriam redução
da libido.
A
Tabela abaixo demonstra a diversidade de sintomas apresentados
segundo o sexo. Revela a forma como homens e mulheres reagem
ao assédio moral de seus chefes.
Tabela
1 - Sintomas relacionados a situações de assédio
moral.
|
Sintomas
|
Mulheres
|
Homens
|
|
Crises de choro
|
100
|
-
|
|
Dores generalizadas
|
80
|
80
|
|
Palpitações,
tremores
|
80
|
40
|
|
Sentimento de inutilidade
|
72
|
40
|
|
Insônia ou sonolência
excessiva
|
69,6
|
63,6
|
|
Depressão
|
60
|
70
|
|
Diminuição
da libido
|
60
|
15
|
|
Sede de vingança
|
50
|
100
|
|
Aumento da pressão
arterial
|
40
|
51,6
|
|
Dor de cabeça
|
40
|
33,2
|
|
Distúrbios digestivos
|
40
|
15
|
|
Tonturas
|
22,3
|
3,2
|
|
Idéia de suicídio
|
16,2
|
100
|
|
Falta de apetite
|
13,6
|
2,1
|
|
Falta de ar
|
10
|
30
|
|
Passa a beber
|
5
|
63
|
|
Tentativa de suicídio
|
-
|
18,3
|
Quais
são as repercussões para a vítima...
O
sofrimento provocado pela perversa situação
do assédio moral pode manifestar-se pela presença
de sintomas persistentes, tais como a cefaléia, fadiga
crônica, sensação de mal estar, sensação
de pressão no peito e estresse. Com a evolução
do tempo progride para estados depressivos, transtornos ansiosos
e em situações de extremo sofrimento podem desencadear
tentativas de suicídio.
Reação
de enfrentamento ao estresse provocado pelo assédio
pode levar ao aumento do consumo de álcool, tabaco,
drogas, medicamentos gerando ou agravando situações
de dependência química concomitante. Transtornos
do sono são freqüentes.
A saúde física e mental da pessoa é afetada
em conjunto com o abatimento moral, o constrangimento que
leva a pessoa vítima do assédio moral a degradar
a sua condição de trabalho e a sua qualidade
de vida. Os sintomas podem acometer diferentes sistemas orgânicos
e o trabalhador pode apresentar distúrbios psicossomáticos,
cardíacos, digestivos, respiratórios, endocrinológicos,
dérmicos etc.
Os
distúrbios são em geral, de longa duração,
mesmo quando a situação é resolvida,
a vítima continua a sofrer, pois não esquece
o desprezo a que foi submetida, isto as impede de viver de
modo pleno.
Em
geral, a vítima, isolada e fragilizada, se culpa e
por isso se defende mal. Começa a ficar confusa, já
não sabe mais distinguir o que é anormal ou
normal.
Os
médicos quando não conseguem detectar porque
a pessoa não está bem devem buscar aprofundar
a anamnese e história médica, com especial atenção
para as relações no ambiente de trabalho, pois
os sintomas que a pessoa sente e que se mantém ao longo
do tempo podem estar relacionados ao assédio moral
que ela sofre.
A
base do apoio médico e psicológico é
aumentar a auto-estima da pessoa, para que ela identificando
as situações de assédio possa sentir-se
estimulada a tomar atitudes de enfrentamento.
Como
é vista a pessoa vítima de assédio moral...
O
trabalhador é taxado como maluco, paranóico
(tem mania de perseguição), de que vive a inventar
coisas, de que reclama muito.
Quanto
mais perto da linha de produção, do chão
de fábrica, mais aparente e com maior visibilidade
se apresenta a situação de assédio moral.
Já a nível mais alto da hierarquia, mais velado
e mais dissimulado ele ocorre.
Quais
são as profissões mais atingidas...
Trabalhadores
da área de saúde, como os enfermeiros, professores,
pessoal administrativo especialmente aqueles que atuam em
empresas públicas e em serviços públicos,
estão entre os profissionais que mais sofrem assédio
moral.
O
assédio moral existe em todos os ambientes de trabalho...
Na
França, o assédio moral é praticado como
meio de se ver livre de pessoas que são mais protegidas
pela legislação, como os funcionários
públicos e de estatais, mulheres grávidas, delegados
sindicais e pessoas mais velhas. A licença médica
custa mais caro e as pessoas acabam pressionadas a vender
direitos, entrar em programas de incentivo a demissão
voluntária, enfim, a ir para casa.
Como
via de regra é o comportamento do agressor...
Um
dos momentos em que se manifesta o assédio, de forma
mais contundente, é quando se critica algum procedimento
ou quando se denuncia alguma irregularidade. Outra situação
é a negação das diferenças, quando
se fica próximo da discriminação.
O
agressor via de regra, se justifica pela culpa que a vítima
assume. A percepção de que a vítima já
não reage ou não consegue distinguir o normal
do anormal perpetua a agressão.
Quando ocorrem situações nas quais o subordinado
tem mais escolaridade que o chefe, ciúme, inveja podem
se manifestar desde um simples olhar inquisidor ou incriminador
do chefe. É o crescimento que incomoda ao chefe.
A
possibilidade de dominar o outro para adquirir respeito pelo
medo está muito presente. Este comportamento pode levar
a contaminação de toda a hierarquia e eclodir
como cascata atingindo todos os níveis da organização
de forma epidêmica.
Muitas
vezes, as empresas estimulam a rivalidade entre grupos ou
entre pessoas do mesmo setor, isolando as pessoas para que
elas se defrontem entre si.
Aumentos
diferenciados para gerentes e para alguns colaboradores vem
sendo uma prática constante. Muitas empresas já
não concedem mais reposição linear de
salário para os trabalhadores, embutem reajustes salariais
para somente parte dos trabalhadores a título de promoção,
driblando a reposição de perdas salariais para
o conjunto dos trabalhadores.
Essa
atitude e outras contribuem para fragmentar as lutas sindicais
na defesa da classe trabalhadora, como ocorreu recentemente
no episódio envolvendo a venda dos direitos do ATS
- Adicional por Tempo de Serviço na Petrobrás.
O
que fazer...
A
pessoa vítima de assédio moral deve buscar anotar
os episódios, ainda que fortuitos, pois são
mais fáceis de esquecer, recomendando-se os seguintes
passos: