Existe
um dito, no Brasil, segundo o qual há leis que pegam e
leis que não pegam. A legislação ambiental
brasileira já pode ser considerada boa, para os padrões
internacionais. No entanto, na maior parte do país, pode-se dizer
que ela ainda não pegou. Para uma lei pegar,
não basta existir, ela precisa despertar interesse e mobilização
de forças reais após sua promulgação.
Quem mais
agride o meio ambiente são os empresários e o próprio
poder púbico este por omissão ou por prática
de atividades danosas. Não podemos esperar deles, portanto, o
interesse ou a mobilização.
As forças
interessadas em um meio ambiente equilibrado precisam agir para fazer
com que as leis ambientais peguem. Muitos empresários
e gestores públicos já entenderam que preservar o meio
ambiente significa economia de matéria-prima e energia e ganho
para sua imagem pública. Mas a maioria ainda acha que investir
na preservação é gasto sem retorno.
Para estes, toda a burla é válida, do suborno ao despejo
de efluentes no silêncio e na penumbra da noite, em dias de chuva
ou nos fins de semana, períodos em que não há fiscalização.
É preciso ação social contra eles.
Existem,
no estado e no país, muitos movimentos ecológicos, vários
formados por estudantes ou moradores mobilizados por alguma causa ambiental
de suas comunidades. O apoio político e material das entidades
sindicais fortalece a ação desses movimentos.
A legislação
abre espaços para a ação sindical em defesa do
meio ambiente. A vontade política, o nível de organização
e a criatividade apontarão as formas de luta pela saúde
de sua categoria e da população ao redor da fábrica.
Uma fábrica
que emite gases ou produz muito ruído, atinge a vizinhança
mas, antes, atinge seus próprios trabalhadores. É uma
questão que a Cipa e o sindicato podem enfrentar. Despejo de
efluentes fora dos limites estabelecidos pela legislação
polui o solo, os rios ou o ar. Cabe à Cipa e ao sindicato cobrar
da empresa medidas contra esse tipo de irregularidade.
Os sindicalistas
devem lutar pela criação, em seu sindicato, de uma comissão
ou secretaria de saúde, tecnologia e meio ambiente. De acordo
com a lei ambiental, o sindicato que tiver como uma de suas finalidades
(definidas em estatuto), a defesa do meio ambiente, pode entrar na justiça
com processo público contra agressões ambientais. O Sindipetro-RJ,
por exemplo, já incorporou ao seu estatuto esses preceitos ambientais.
| Vitorias
dos trabalhadores |
Em nosso
próprio estado, já temos vários exemplos de iniciativas
vitoriosas de sindicatos que resultaram em proteção ao
meio ambiente.
Os trabalhadores
do estaleiro Verolme, vítimas de silicose, conquistaram, com
seu movimento, a aprovação, pela ALERJ (Assembléia
Legislativa do Estado do Rio de Janeiro), de lei proibindo o uso de
jatos de areia no Estado, exemplo que foi seguido pela Prefeitura de
Joinville, em Santa Catarina.
Ainda na
década de 80, o Sindicato dos Químicos e Engenheiros Químicos
e a Associação de Moradores da Penha, juntos, conseguiram
a transferência de uma fábrica de produtos químicos,
do Curtume Carioca para o distrito industrial de Santa Cruz. A vitória
foi obtida a partir de uma série de ações tais
como: produção de cartilha sobre os efeitos à saúde
dos produtos utilizados no curtume; confirmação da ocorrência
desses efeitos na região através do levantamento dos atendimentos
no posto de saúde da Penha; debates sobre o assunto com a comunidade
e pressão sobre as autoridades estaduais.
Atualmente,
em Angra dos Reis, a SAPÊ (Sociedade Angrense de Proteção
Ecológica), entidade ambientalista, tem conseguido mobilizar
a população discutindo os problemas da energia nuclear
e os impactos da especulação imobiliária com apoio
dos sindicatos dos petroleiros e eletricitários, dentre outros.
No Rio
de Janeiro, o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Química
e Farmacêutica mobilizou os trabalhadores e conseguiu, com apoio
parlamentar, o compromisso da Indústria Pan-americana de modernizar
seu processo de produção de cloro-soda. O objetivo é
eliminar a utilização de eletrodos de mercúrio
que, além de agredir os trabalhadores, agride a Baia de Guanabara.
Dentre outras ações, os trabalhadores fizeram exame de
sangue no CESTEH - Fundação Oswaldo Cruz e na Unicamp,
para comprovar a contaminação por mercúrio. Também
foi assinado um Termo de Ajustamento de Conduta, junto ao Ministério
Público, definindo o prazo até 1998 para que a empresa
modificasse a tecnologia de produção, sob pena de interromper
definitivamente suas atividades.
Infelizmente,
até hoje a empresa não cumpriu seu compromisso. O Ministério
Público vem acionando a Pan-americana inclusive, com ameaça
de fechá-la. A empresa detém exclusividade no fornecimento
de cloro para tratamento da água que abastece o Estado, o que
vem dificultando essas ações.
| Ação
no local de trabalho |
As Cipas
(Comissões Internas de Prevenção de Acidentes de
Trabalho) são espaços de ação dos sindicalistas
nos locais de trabalho. Em muitos lugares, por pressão patronal
ou por dificuldade de organização dos trabalhadores, as
Cipas não cumprem o seu papel. Isto contribui para o grande índice
de acidentes de trabalho no país.
A CUT vem
propondo a transformação das Cipas em Comissões
de Prevenção de Acidentes e Saúde do Trabalhador.
Esta mudança significa a conquista de mais um espaço legítimo
e legal, no local de trabalho, para o movimento sindical defender a
saúde do trabalhador e, conseqüentemente, do meio ambiente.
Esta proposta deve ser defendida por todos os que já compreenderam
a ligação entre insalubridade no ambiente de trabalho,
poluição ambiental e saúde do trabalhador.
Para potencializar
a sua atuação sindical nas questões ambientais,
os sindicatos podem inicialmente constituir uma comissão para
discutir o assunto. Ou, num passo mais concreto, constituir uma secretaria
específica. O Sindipetro-RJ, por exemplo, já possui, há
anos, a secretaria de Saúde, Tecnologia e Meio Ambiente.
É
importante, também, que o sindicato inclua questões ambientais
e de saúde em suas pautas de reivindicações, nas
campanhas salariais. Os petroleiros, por exemplo, há anos conquistaram
o direito de ter um representante sindical participando das reuniões
das Cipas e de exigir cópias das CAT (Comunicações
de Acidentes de Trabalho).
| Integração
Sindicato-Comunidade |
A Licença
Ambiental pode ser um interessante instrumento de integração
entre sindicatos e comunidade. Para implantar e operar qualquer atividade
econômica, no Brasil, um empresário, precisa da licença
ambiental prévia, de instalação e operação
(decreto no 99.274 de 06/06/90).
Para atividades que possam causar impactos ambientais, a Constituição
exige que a empresa realize o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e o
respectivo Relatório de Impacto Ambiental (RIMA) para a obtenção
da licença. O projeto, juntamente com o EIA e RIMA, devem ser
submetidos a amplo debate com a população das proximidades
do local do empreendimento, em audiências públicas. Todas
as perguntas devem ser adequadamente respondidas. Após as audiências,
a comunidade tem direito de exigir alterações, medidas
compensatórias pelos impactos que irá causar ou, até
mesmo, rejeitar o projeto.
Os sindicatos
podem apoiar a comunidade antes, durante e após a audiência.
Com o conhecimento específico, os trabalhadores podem orientar
a formulação de perguntas e alertar para riscos que a
empresa esteja escondendo.
Qualquer
obra que venha a modificar e impactar, significativamente, o meio ambiente
ou interferir na qualidade de vida das pessoas também tem que
ser submetida, obrigatoriamente, a estudos de impacto ambiental e audiência
pública. É o caso da construção de estradas,
túneis, avenidas e grandes empreendimentos imobiliários,
entre outros. A tentativa de transformar o estádio do Flamengo
em um grande centro comercial é um exemplo deste tipo de obra,
que tem sido alvo de críticas da comunidade local.
Em maio
de 2000, São Paulo teve que adotar um programa de racionamento
de água que atingiu cerca de 3 milhões de pessoas diariamente.
Descobrimos que a falta dágua não atinge só
os nordestinos! Somos educados com a visão de que os recursos
naturais são ilimitados. Compreender
que eles são finitos é o primeiro passo para colaborarmos
com a preservação deste bem fundamental à vida.
Os grandes
responsáveis pelo desperdício de água são
os poderes públicos e as indústrias. Os poderes públicos
deveriam adotar várias medidas para redução do
consumo de água e sua melhor distribuição. As indústrias,
que são grandes consumidoras, também deveriam economizar.
Precisamos
de políticas públicas que incentivem a redução
do consumo de água e tratamento adequado de efluentes industriais,
para reutilização da água. A cidade do México
já tomou essas medidas.
Os sindicatos,
como outras entidades do movimento popular, podem organizar programas
educativos, para mostrar a necessidade de se economizar água
e ensinar práticas com essa finalidade.
O importante
é participar de movimentos que exijam das autoridades uma política
de preservação de mananciais e de redução
do consumo e do desperdício de água.
Todas
as formas de geração de energia provocam impactos ambientais
e nossa sociedade é dependente de energia. Podemos modificar
nosso padrão de desenvolvimento e consumo de energia. Cada vez
que descartamos qualquer produto - um simples copo plástico,
pneu ou computador - descartamos também energia gasta em sua
fabricação.
A sociedade
capitalista induz a população a utilizar cada vez mais
produtos descartáveis, provocando consumo exagerado de energia.
Modifica os hábitos para vender novos produtos com a mesma função
de outros ainda em plena vida útil.
Cada pessoa
pode reduzir seu consumo com a simples mudança nos hábitos
de vida: utilizar escada em vez de elevador, usar transporte coletivo,
caminhar em vez de usar um veículo para ir ali na esquina,
manter luzes apagadas onde não estejam em uso, utilizar bebidas
de garrafas recicláveis etc.
Os sindicatos
podem fazer debates sobre novos padrões de utilização
de energia. Também podem se engajar em movimentos que exijam
dos poderes públicos medidas como priorizar o financiamento de
tecnologias que gastem menos energia e outras políticas com esse
fim.
Isto é
possível em todas as áreas industriais e de serviços.
Em um prédio, por exemplo, pode-se usar mais ventilação
e iluminação natural. Construir carros com materiais mais
leves consumirá menos combustível. Incentivar grandes
indústrias e fornecedores de serviços a adotarem processos
de cogeração de energia; incentivar pequenos consumidores
a captar energia solar para suprir parte de suas necessidades; incentivar
a adoção de tratamentos anaeróbicos de efluentes
e utilizar gás como combustível, são outras medidas
importantes.
No Brasil,
estão sendo implantados Comitês de Gerenciamento
das Bacias Hidrográficas, com a participação
prevista em lei da população organizada. Estes Comitês
tem a função de fiscalizar o uso e zelar pela qualidade
da água dos mananciais que abastecem as populações.
Esse é um espaço onde os sindicatos também podem
se fazer presentes.
Para auxiliar
no início de um trabalho ambiental em seu sindicato, seguem algumas
sugestões de perguntas a serem levantadas na diretoria:
- No processo
de produção desenvolvido pelas empresas de sua base
sindical existem atividades potencialmente agressoras ao meio ambiente?
- Tais
empresas respeitam a legislação ambiental no descarte
de seus efluentes líquidos, sólidos e gasosos?
- Tais
empresas mantêm, em suas dependências, depósitos
de resíduos perigosos e/ou poluentes? Se sim, estão
adequadamente estocados?
- Há
movimentos ecológicos nas proximidades de seu sindicato?
- As publicações
de seu sindicato noticiam e discutem problemas ambientais?
- As Cipas
de sua base sindical discutem também os problemas de saúde
de seus trabalhadores? E as questões ambientais são
objeto de discussão?
- Os estatutos
de seu sindicato prevêem, dentre suas finalidades, a defesa
do meio ambiente?
- Seu
sindicato já vem apoiando iniciativas de movimentos sociais
relacionados ao meio ambiente?
- Seu
sindicato se dispõe a convocar seus associados e convidar a
comissão de meio ambiente da CUT para discutir as questões
ambientais?
| Situações
ambientais críticas no Estado do Rio de Janeiro |
Todas as
regiões do Estado do Rio de Janeiro apresentam algum tipo de
problema ambiental (veja tabela 7). São áreas que necessitam
de ações ambientais urgentes e permanentes.
Os sindicatos
têm um especial papel a desempenhar na vigilância dessas
regiões, pois são locais ou pólos industriais ou
agrícolas, onde suas bases atuam, normalmente.
É
preciso despertar este sentido do cuidado com a qualidade de vida no
trabalho e na localidade onde vivemos.
Em muitas
situações, o trabalhador, com o conhecimento que adquiriu
em sua vida laboral, é o primeiro a tomar iniciativas quando
percebe que sua comunidade pode ser atingida.
Conhecer
as regiões onde se localizam as indústrias, o que produzem
e como tratam seus rejeitos é um passo fundamental para impedirmos
ações que gerem doenças no planeta e na população.
Devemos fiscalizar as empresas, como zelosos guardiões da natureza,
mas também devemos vigiar nossos próprios atos individuais.
A mudança
de atitude, com uma postura mais zelosa com o ambiente à nossa
volta, implica em cultivar valores do cuidado com o planeta. Devemos
evitar jogar lixo nas ruas, nos rios e no mato. Se não cuidarmos
desse bem que nos foi legado em milhões de anos de evolução
do universo, para onde irão as gerações futuras?
Será que algum planeta irmão nesta imensidão do
universo estará disposto a albergar uma raça tão
hostil à natureza? Certamente, não devemos transformar
a luta que já travamos entre nós mesmos, com as desigualdades
sociais de acesso à energia, à água e à
terra numa disputa sideral. É preciso fazer algo, e é
melhor que seja já, agora.
