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Manifestação no Conselho Universitário da UFRJ
O Programa de Apoio a Planos de Reestruturação
e Expansão das Universidades Federais (Reuni) foi instituído
pelo governo federal em abril do ano passado, pelo decreto 6096/07.
Parte do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE),
o Programa tem gerado muita polêmica nas universidades federais
de todo o país desde que foi publicado: no segundo semestre
de 2007, por exemplo, milhares de estudantes de dezenas de universidades
federais ocuparam suas reitorias para impedir a adesão
das instituições ao projeto.
O Programa Rádio Surgente, da Web Rádio Petroleira,
discutiu, no último dia 7, o Reuni e a educação
superior em geral. Participaram como convidadas, Lígia
Antunes, diretora do Sindicato dos Trabalhadores da UFF, e Vera
Maria Salim, ex-diretora da Associação de Docentes
da UFRJ. Elas esclareceram que o projeto está orientado
pela premissa de que a expansão das universidades se dará
através da melhor utilização da estrutura
física e dos recursos humanos de que dispõem atualmente
as instituições de ensino superior, ignorando os
sistemáticos cortes nas verbas destinadas à educação
superior nos últimos anos, os reais causadores da situação
de sucateamento e precariedade em que se encontram as instituições
de ensino atualmente.
EXPANSÃO OU PRECARIZAÇÃO? - Segundo
Vera Salim, o projeto do governo acena com a possibilidade de
um complemento de 20% no atual orçamento das universidades
para aquelas que se comprometerem em atender as metas globais
previstas no Reuni, a saber: o aumento da relação
professor/aluno nas universidades para 1/18 (atualmente, esta
relação é de aproximadamente 1/10) e a elevação
da taxa de conclusão dos cursos para 90%. A professora
aponta que a visão dos movimentos sociais da área
de educação, que têm o aumento de vagas e
a redução da taxa de evasão nas universidades
como algumas de suas bandeiras históricas, é a de
que, sem uma contrapartida qualitativa do ponto de vista do aumento
das verbas, o cumprimento das metas impostas pelo Reuni significará
a precarização do ensino universitário. A
obrigatoriedade da elevação da taxa de conclusão
dos cursos para 90%, por exemplo, pode significar uma variante
da famigerada aprovação automática implementada
nos ensinos fundamental e médio. Além disso, as
diretrizes do decreto sinalizam que, para a garantia desta taxa
de 90% de conclusão, serão implementados os bacharelados
interdisciplinares, cursos genéricos de curta duração.
As novas vagas propostas pelo Reuni, portanto, serão
para cursos de moldes diferentes dos atuais, voltados para a formação
de bacharéis genéricos, a partir de cursos rápidos,
muitas vezes por ensino a distância. A ampliação
sob estes moldes significaria, na realidade, uma restrição
do acesso aos cursos de graduação, limitados a uma
elite que passasse por um segundo vestibular e tivesse condições
financeiras de se manter por aproximadamente sete anos na universidade.
“Há, ainda, uma questão importante que consta
no próprio texto do decreto: o atendimento aos planos das
universidades é condicionado à capacidade orçamentária
do MEC. Sabemos que, de acordo com o PAC, as verbas para a educação
estão congeladas. Ou seja, nem os 20% com que o governo
acena estão garantidos”, analisou Vera Salim.
A precarização das relações de trabalho
é outra preocupação dos servidores técnico-administrativos
das universidades federais. Segundo Lígia Antunes, “a
sobrecarga de trabalho é uma grande preocupação,
já que a universidade, para receber verbas, precisará
dobrar o número de alunos em sala de aula sem concurso
público para professores ou funcionários. Nós
já enfrentamos uma demanda muito maior do que a nossa capacidade
de trabalho, já que há muitos anos não são
realizados concursos”.
A bandeira da autonomia universitária também vem
sendo muito reivindicada pelos movimentos sociais, que questionam
a imposição de um modelo para a universidade pública
pelo MEC, sem discussão e formulação coletiva
com a comunidade acadêmica nos fóruns e órgãos
colegiados das universidades. “O Andes e a Fasubra (representantes
dos professores e funcionários) têm projetos de universidade.
O grande problema é que o Reuni é um decreto imposto
de cima pra baixo, que inclui lógica produtivista, não
leva em conta a qualidade do ensino e transforma a universidade
em uma fábrica de diplomas. Sabemos que existem muitos
problemas na universidade e temos projeto para superá-los,
mas não fomos chamados para formular nada”, contou
a sindicalista da UFF.
UNIVERSIDADES EM LUTA – As discordâncias
da comunidade acadêmica com o projeto do governo federal
se refletiram nos processos de aprovação da adesão
das instituições de ensino ao Reuni. Professores,
estudantes e funcionários das universidades questionaram
a falta de representatividade das instâncias definidas pelo
próprio decreto como responsáveis pela deliberação
definitiva de entrada ou não no programa: os Conselhos
Superiores das universidades, que, em sua grande maioria, não
são paritários. Diante de tal contestação,
os movimentos de educação exigiram das reitorias
a convocação de fóruns democráticos,
como plebiscitos e congressos internos, para a tomada de decisão.
A intransigência das administrações das
universidades foi comprovada não apenas pelas reiteradas
negativas para a realização de debates e convocação
de fóruns democráticos para a deliberação
sobre a adesão ou não ao Reuni. Em todas as universidades
em que houve mobilizações, os projetos das reitorias
foram aprovados sob forte repressão e ataques aos direitos
do movimento organizado. “Na UFF, o Reuni foi aprovado com
muitas irregularidades. Estudantes, professores e funcionários
foram agredidos e impedidos de acompanhar a sessão do Conselho
Universitário em que a decisão foi tomada, realizada
em local de acesso restrito”, contou Lígia Antunes.
Segundo Vera Salim, a situação da UFRJ não
foi diferente: “os estudantes foram impedidos de falar e
de votar. Com centenas de manifestantes em cima do palco, o reitor
gritou mais de dez vezes para que os favoráveis à
adesão ao Reuni levantassem os braços e, sem contagem
de votos ou mesmo consulta dos votos contrários, afirmou
que a votação estava encerrada e o projeto aprovado.
Isso tudo com muita violência e agressão contra o
movimento”.
Mesmo diante das aprovações anti-democráticas,
a luta nas universidades não parou. O primeiro semestre
de 2008 começou com debates e mobilizações
em muitas universidades, contra o Reuni e em defesa da educação
pública e de qualidade. “Continuamos com a mobilização.
Ainda está em pauta a luta nacional unificada pela revogação
do decreto do Reuni e, de maneira geral, a luta em defesa da educação
pública, para que a universidade volte a cumprir seu papel
social e formule conhecimento a serviço da classe trabalhadora”,
finalizou Vera Salim.
| UnB e UFMG: reitorias
ocupadas em defesa da educação |
Os maiores expoentes da luta em defesa
da educação pública neste primeiro
semestre de 2008 são os processos de mobilização
que se desenvolveram na Universidade Federal de Minas Gerais
e, principalmente, na Universidade de Brasília. Os
estudantes dessas universidades se organizaram e conseguiram
dar importantes passos na luta por uma universidade pública
e de qualidade.
Na UFMG, a ocupação foi motivada pela luta
contra a repressão, diante da entrada da PM no campus
da Universidade, autorizada pela reitoria, para impedir
a exibição de um documentário sobre
legalização das drogas. A atividade foi inviabilizada
pela polícia com autoritarismo e truculência.
Muitos estudantes foram agredidos e houve, inclusive, uma
prisão. O movimento organizou um ato de protesto
em frente à reitoria, no dia 7 de abril. Diante da
negativa da reitoria em discutir com os estudantes, uma
assembléia deliberou pela ocupação
do prédio, que durou até o último dia
10. Segundo a carta de desocupação do movimento,
“Conseguimos que a universidade se retratasse perante
a sociedade pelos acontecimentos e também que a reitoria
auxiliasse os estudantes que entrarão com denúncias
contra a PM. Conseguimos também iniciar a discussão
sobre segurança pública, dentro e fora da
universidade e que sejam realizados seminários não
somente sobre esse tema, mas também sobre o convênio
da UFMG com a PM e outras opressões vivenciadas por
alunos dentro do campus, como a homofobia”.
Na UnB, a mobilização assumiu proporções
ainda maiores e garantiu importantes vitórias concretas.
Diante dos escândalos de corrupção envolvendo
a reitoria e a fundação privada da universidade,
uma série de discussões sobre a privatização
da Universidade e a falta de democracia em seus órgãos
colegiados começaram a ser travadas. A mobilização
estudantil culminou com a ocupação da reitoria,
que já conquistou a renúncia do reitor Thimoty
e de seu vice. Agora os estudantes reivindicam a paridade
para as próximas eleições para reitor
e o fim das fundações privadas, que representam
um ataque ao caráter público da instituição.
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