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SURGENTE - ANO XIV – NÚMERO 1130 - 17 a 23/04/2008 - PÁGINA 4
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Sucateamento e privatização:  educação superior em risco  
 

  
A entrevista, realizada por  Fátima Lacerda e Nato Kandhal, teve a participação de Francisco Soriano
Manifestação no Conselho Universitário da UFRJ

O Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni) foi instituído pelo governo federal em abril do ano passado, pelo decreto 6096/07. Parte do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), o Programa tem gerado muita polêmica nas universidades federais de todo o país desde que foi publicado: no segundo semestre de 2007, por exemplo, milhares de estudantes de dezenas de universidades federais ocuparam suas reitorias para impedir a adesão das instituições ao projeto.
O Programa Rádio Surgente, da Web Rádio Petroleira, discutiu, no último dia 7, o Reuni e a educação superior em geral. Participaram como convidadas, Lígia Antunes, diretora do Sindicato dos Trabalhadores da UFF, e Vera Maria Salim, ex-diretora da Associação de Docentes da UFRJ. Elas esclareceram que o projeto está orientado pela premissa de que a expansão das universidades se dará através da melhor utilização da estrutura física e dos recursos humanos de que dispõem atualmente as instituições de ensino superior, ignorando os sistemáticos cortes nas verbas destinadas à educação superior nos últimos anos, os reais causadores da situação de sucateamento e precariedade em que se encontram as instituições de ensino atualmente.

EXPANSÃO OU PRECARIZAÇÃO? - Segundo Vera Salim, o projeto do governo acena com a possibilidade de um complemento de 20% no atual orçamento das universidades para aquelas que se comprometerem em atender as metas globais previstas no Reuni, a saber: o aumento da relação professor/aluno nas universidades para 1/18 (atualmente, esta relação é de aproximadamente 1/10) e a elevação da taxa de conclusão dos cursos para 90%. A professora aponta que a visão dos movimentos sociais da área de educação, que têm o aumento de vagas e a redução da taxa de evasão nas universidades como algumas de suas bandeiras históricas, é a de que, sem uma contrapartida qualitativa do ponto de vista do aumento das verbas, o cumprimento das metas impostas pelo Reuni significará a precarização do ensino universitário. A obrigatoriedade da elevação da taxa de conclusão dos cursos para 90%, por exemplo, pode significar uma variante da famigerada aprovação automática implementada nos ensinos fundamental e médio. Além disso, as diretrizes do decreto sinalizam que, para a garantia desta taxa de 90% de conclusão, serão implementados os bacharelados interdisciplinares, cursos genéricos de curta duração.

As novas vagas propostas pelo Reuni, portanto, serão para cursos de moldes diferentes dos atuais, voltados para a formação de bacharéis genéricos, a partir de cursos rápidos, muitas vezes por ensino a distância. A ampliação sob estes moldes significaria, na realidade, uma restrição do acesso aos cursos de graduação, limitados a uma elite que passasse por um segundo vestibular e tivesse condições financeiras de se manter por aproximadamente sete anos na universidade. “Há, ainda, uma questão importante que consta no próprio texto do decreto: o atendimento aos planos das universidades é condicionado à capacidade orçamentária do MEC. Sabemos que, de acordo com o PAC, as verbas para a educação estão congeladas. Ou seja, nem os 20% com que o governo acena estão garantidos”, analisou Vera Salim.

A precarização das relações de trabalho é outra preocupação dos servidores técnico-administrativos das universidades federais. Segundo Lígia Antunes, “a sobrecarga de trabalho é uma grande preocupação, já que a universidade, para receber verbas, precisará dobrar o número de alunos em sala de aula sem concurso público para professores ou funcionários. Nós já enfrentamos uma demanda muito maior do que a nossa capacidade de trabalho, já que há muitos anos não são realizados concursos”.

A bandeira da autonomia universitária também vem sendo muito reivindicada pelos movimentos sociais, que questionam a imposição de um modelo para a universidade pública pelo MEC, sem discussão e formulação coletiva com a comunidade acadêmica nos fóruns e órgãos colegiados das universidades. “O Andes e a Fasubra (representantes dos professores e funcionários) têm projetos de universidade. O grande problema é que o Reuni é um decreto imposto de cima pra baixo, que inclui lógica produtivista, não leva em conta a qualidade do ensino e transforma a universidade em uma fábrica de diplomas. Sabemos que existem muitos problemas na universidade e temos projeto para superá-los, mas não fomos chamados para formular nada”, contou a sindicalista da UFF.

está em pauta a luta nacional unificada pela revogação do decreto do Reuni

UNIVERSIDADES EM LUTA – As discordâncias da comunidade acadêmica com o projeto do governo federal se refletiram nos processos de aprovação da adesão das instituições de ensino ao Reuni. Professores, estudantes e funcionários das universidades questionaram a falta de representatividade das instâncias definidas pelo próprio decreto como responsáveis pela deliberação definitiva de entrada ou não no programa: os Conselhos Superiores das universidades, que, em sua grande maioria, não são paritários. Diante de tal contestação, os movimentos de educação exigiram das reitorias a convocação de fóruns democráticos, como plebiscitos e congressos internos, para a tomada de decisão.

A intransigência das administrações das universidades foi comprovada não apenas pelas reiteradas negativas para a realização de debates e convocação de fóruns democráticos para a deliberação sobre a adesão ou não ao Reuni. Em todas as universidades em que houve mobilizações, os projetos das reitorias foram aprovados sob forte repressão e ataques aos direitos do movimento organizado. “Na UFF, o Reuni foi aprovado com muitas irregularidades. Estudantes, professores e funcionários foram agredidos e impedidos de acompanhar a sessão do Conselho Universitário em que a decisão foi tomada, realizada em local de acesso restrito”, contou Lígia Antunes. Segundo Vera Salim, a situação da UFRJ não foi diferente: “os estudantes foram impedidos de falar e de votar. Com centenas de manifestantes em cima do palco, o reitor gritou mais de dez vezes para que os favoráveis à adesão ao Reuni levantassem os braços e, sem contagem de votos ou mesmo consulta dos votos contrários, afirmou que a votação estava encerrada e o projeto aprovado. Isso tudo com muita violência e agressão contra o movimento”.

Mesmo diante das aprovações anti-democráticas, a luta nas universidades não parou. O primeiro semestre de 2008 começou com debates e mobilizações em muitas universidades, contra o Reuni e em defesa da educação pública e de qualidade. “Continuamos com a mobilização. Ainda está em pauta a luta nacional unificada pela revogação do decreto do Reuni e, de maneira geral, a luta em defesa da educação pública, para que a universidade volte a cumprir seu papel social e formule conhecimento a serviço da classe trabalhadora”, finalizou Vera Salim.

 

UnB e UFMG: reitorias ocupadas em defesa da educação

Os maiores expoentes da luta em defesa da educação pública neste primeiro semestre de 2008 são os processos de mobilização que se desenvolveram na Universidade Federal de Minas Gerais e, principalmente, na Universidade de Brasília. Os estudantes dessas universidades se organizaram e conseguiram dar importantes passos na luta por uma universidade pública e de qualidade.

Na UFMG, a ocupação foi motivada pela luta contra a repressão, diante da entrada da PM no campus da Universidade, autorizada pela reitoria, para impedir a exibição de um documentário sobre legalização das drogas. A atividade foi inviabilizada pela polícia com autoritarismo e truculência. Muitos estudantes foram agredidos e houve, inclusive, uma prisão. O movimento organizou um ato de protesto em frente à reitoria, no dia 7 de abril. Diante da negativa da reitoria em discutir com os estudantes, uma assembléia deliberou pela ocupação do prédio, que durou até o último dia 10. Segundo a carta de desocupação do movimento, “Conseguimos que a universidade se retratasse perante a sociedade pelos acontecimentos e também que a reitoria auxiliasse os estudantes que entrarão com denúncias contra a PM. Conseguimos também iniciar a discussão sobre segurança pública, dentro e fora da universidade e que sejam realizados seminários não somente sobre esse tema, mas também sobre o convênio da UFMG com a PM e outras opressões vivenciadas por alunos dentro do campus, como a homofobia”.

Na UnB, a mobilização assumiu proporções ainda maiores e garantiu importantes vitórias concretas. Diante dos escândalos de corrupção envolvendo a reitoria e a fundação privada da universidade, uma série de discussões sobre a privatização da Universidade e a falta de democracia em seus órgãos colegiados começaram a ser travadas. A mobilização estudantil culminou com a ocupação da reitoria, que já conquistou a renúncia do reitor Thimoty e de seu vice. Agora os estudantes reivindicam a paridade para as próximas eleições para reitor e o fim das fundações privadas, que representam um ataque ao caráter público da instituição.


 
   
 
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