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SURGENTE ANO XI – NÚMERO 1020 - 24/2 a 1/3/2005 - PÁGINA 4
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Hugo Rafael Chàvez Frias, tenente-coronel reformado do Exército, professor e mestre em Ciência Política, se elegeu duas vezes presidente da Venezuela, com expressiva votação. Apesar das críticas da imprensa internacional ao seu governo, saiu fortalecido após o referendo da população ao seu governo em 2004 e do fracassado golpe para afastá-lo da presidência, patrocinado pelo governo norte-americano, que levou o povo a ocupar as ruas de Caracas exigindo sua volta. Chàvez foi a grande estrela do V Fórum Social Mundial: a personalidade que mais atraiu público e o mais ovacionado. O presidente venezuelano levou 25 mil pessoas ao Gigantinho, além das mais de cinco mil que ficaram do lado de fora acompanhando o discurso pelo telão. Antes da palestra, Chàvez participou a inauguração do Bosque Internacional da Solidariedade em um assentamento do MST, junto com o coordenador nacional da entidade, Stédile. Ele concedeu entrevista coletiva a mais de 200 órgãos de imprensa. Sua comitiva sorteou cinco jornalistas usando o critério de duas empresas de comunicação, uma agência de notícias e dois veículos alternativos.

Rede Brasil - Qual é o papel dos militares hoje na América Latina?

Chàvez - Eu sou militar, portanto você tocou num ponto especial para mim. Alguns de nossos colegas que aqui estão são militares também(referindo-se a membros da comitiva). O papel dos militares na América Latina foi explicado por Simon Bolívar, nosso libertador, líder político e militar também. Quando estava morrendo, Bolívar, em sua última proclamação, deixou uma mensagem para a América: “os militares devem empunhar suas espadas para defender as garantias sociais”. Aí está uma definição bolivariana que já tem 200 anos. Eu creio que devemos agir, guiados por esse mandamento bolivariano, sobretudo os militares. A última coisa que um militar pode fazer é prestar-se ao imperialismo ou prestar-se aos setores dominantes. Bolívar também disse, em uma outra ocasião: “maldito seja o soldado que usa suas armas contra seu povo”. E, nesse momento, com a ofensiva imperialista sobre a América Latina, os militares devem se manter firmes e levantar suas armas para defender seu povo. Nunca subordinar-se ao império, nunca subordinar-se aos interesses das oligarquias. O papel dos militares na América Latina hoje é o papel de libertadores. Claro que os militares devem estar subordinados ao poder político. Mais ainda: eles devem estar subordinados ao máximo poder político de uma nação, que emana do povo.
Certamente alguns militares se venderam ao demônio imperialista e se colocaram contra seu povo, contra o governo revolucionário. E foram derrotados. O golpe foi apoiado pelo governo norte-americano, que diz lutar contra o terrorismo, mas se utiliza do terrorismo contra povos do mundo. Utiliza o terrorismo e o golpismo contra governos democráticos e legítimos, como o governo da Venezuela. Mas o povo venezuelano foi às ruas e a imensa maioria dos militares se opuseram ao golpe de Estado, ao imperialismo. Os militares se uniram ao povo e derrotaram o golpe, que não durou nem 48 horas, durou 47 (risos).

Eu creio que os militares da América Latina devem ser anti imperialistas e as forças armadas devem se colocar a serviço de nosso povo. Na missão bairro adentro, por exemplo, que é uma missão de saúde mais extraordinária da história da Venezuela, os militares andam junto com a comunidade. Os militares andam com os pescadores, preparando barcos, andam juntos, pescando. Os militares andam com os campesinos, recuperando terras do latifúndio. Eles declararam guerra ao latifúndio. Os militares andam com as comunidades e armaram um sistema de distribuição de alimentos, alimentos de qualidade e baratos. Um sistema logístico, muito parecido com o sistema logístico militar. Os militares, em logística, são muito experientes, tem muita capacidade organizativa. O petróleo venezuelano foi explorado pelos EUA durante cem anos, e os militares o recuperara. Levaram nosso petróleo e nos deixaram a miséria. Termino dizendo que uma das linhas principais da revolução Bolivariana é a união cívico-militar. Algumas linhas são estratégicas da Revolução Bolivariana. Primeiro, o fortalecimento do aparato militar. Em segundo lugar, fortalecer a fusão cívico-militar, a união entre a sociedade civil e os militares. E, em terceiro lugar, incrementar a participação popular na defesa nacional. É preciso formação, capacitando-se e treinando-se não só para a educação e o trabalho, mas também para a defesa do país. Enfim, a união cívico-militar é uma das linhas da Revolução Bolivariana. Dizia Bolívar: empunhar sua espada para defender a nação, a soberania e as garantias sociais.

 


Fazendo Media - O senhor sofreu na pele o poder dos meios de comunicação de massa por ocasião do golpe de abril de 2002, golpe felicitado pela grande mídia brasileira, incluindo a Rede Globo e outras emissoras mais. Nesse contexto, a Tele Sur trata somente da integração latino-americana, ou o senhor pretende usar o poder político desta TV como resposta àquela mídia empresarial?

Chàvez - Eu dizia agora há pouco a um grupo de amigos intelectuais, que é necessário que lutemos por um mundo melhor – que não só é possível, mas é imprescindível. Se continua avançando no planeta o modelo capitalista, o modelo neoliberal, a Terra algum dia não vai resistir mais. Inicialmente, a Terra era um corpo, que tinha uma temperatura, que não tinha poluição, que tinha um equilíbrio... Estamos aquecendo perigosamente o planeta, por exemplo. E os maiores responsáveis não querem reconhecer isso. Tapam os ouvidos e os olhos. Se o planeta esquentar mais, irão derreter os pólos, com grandes inundações. Por isso, que esta luta é parta salvar o planeta, para salvar a humanidade. Então, eu ando propondo que passemos à ofensiva. Como o imperialismo passou à ofensiva de maneira aberta. Vejam o Iraque, vejam a Venezuela, vejam os últimos discursos de Mr. Bush. E de Mrs. “Condolência” Rice (risos). Para eles, Hugo Chàvez é uma força negativa na região. Mas eles que são a força negativa. Hoje, um golpe de Estado, amanhã uma invasão, pressões e chantagens econômicas. As pressões para a Alca, esse projeto perverso, que seria como o selo final do imperialismo. Enfim, proponho a vocês que passemos à ofensiva. A melhor defesa é o ataque.

Esse ponto me leva a uma proposta da Venezuela - primeiro à América do Sul, à América Latina, e também ao mundo – que elaboremos uma agenda mundial. Não podemos seguir só debatendo. Porque podemos passar 200 anos debatendo. Debater é positivo, mas é preciso dialética, pensamento e ação. Ação e pensamento de maneira permanente, contínua. Eu lancei algumas propostas muito específicas aos governos da América do Sul, aos governos da América Latina e Caribe. Dentro de cinco semanas celebraremos os cinqüenta anos da Conferência de Bandung, convocada por grandes líderes da África e da Ásia, sobretudo. Os países envolvidos não se alinharam e tornaram-se uma referência no mundo bipolar. Mas com o tempo passou a ser, em meu critério modesto, um elemento meramente discursivo, com cúpulas, reuniões e, em certo tempo, passou à defensiva. Não foi capaz de elaborar uma agenda ofensiva. Hoje tem o Fórum Social Mundial, o Congresso Bolivariano dos Povos, o Encontro Mundial de Intelectuais e Artistas em Defesa da Humanidade, os eventos que se realizam na Europa na Ásia, no Caribe... Eu tenho ido a muitos desses eventos, e creio que é preciso lançar um plano ofensivo, uma agenda de ataque. Calma, não se assuste, Mr. Bush, não vamos invadir Washington (risos).

Alguém na platéia grita: “que pena!”. Chávez responde, rindo: “Tudo tem seu tempo”, arrancando mais risos.

Algumas propostas estão na a Alternativa Bolivariana para as Américas. E uma dessas propostas é a Televisión del Sul. Mas não apenas a América do Sul. O Sul não é um conceito meramente geográfico. O Sul é um conceito ideológico, político. Apenas salvando o Sul, salvaremos também o Norte. A salvação do Norte está no Sul, pois assim salvaremos alguns amigos do Norte, que muitas vezes não têm consciência. Produto de quê? Da tirania midiática. Muitos são vítimas de uma campanha feita pelos grandes meios, como a CNN e outras emissoras, ou os jornais, como New York Times, Washington Times, Washington Post, Los Angeles Times...

Publicaram uma foto minha com Sadam Hussein. Sim, eu fui a Bagdá para discutir uma forma de recuperar a Opep, que estava dividida. Mas nunca mostraram uma foto minha com o Papa. Nunca publicaram nos EUA uma foto minha com Clinton, conversando, debatendo sobre os problemas do continente. Enfim, há uma campanha mundial, uma ditadura midiática. Todos os meios publicaram mentiras: que Chávez havia mandado matar manifestantes pacíficos, que Chávez havia renunciado. Temos sofrido uma ditadura midiática dos meios privados de comunicação. Decidimos há cinco meses ativar a Tele Sur. Buscamos uma integração de meios de comunicação, porque a empresa internacional diz que somos loucos, violentos... Para combater essas mentiras, a Tele Sur será uma televisão para a educação, para a cultura e para a informação verídica.



Parceria entre Petrobrás e PDVSA dará origem a refinaria  

  
No último dia 14 de fevereiro, o presidente Lula esteve em Caracas negociando acordos para as áreas energética, de infra-estrutura e comunicações com o presidente da Venezuela, Hugo Chàvez. Para o setor energético, os dois países se preparam para a criação de uma refinaria no nordeste brasileiro, uma parceria entre a Petrobrás e a PDVSA, estatal venezuelana. A localização exata da refinaria, orçada em US$ 2,5 bilhões, só será conhecida em meados de agosto, quando estarão concluídos os estudos de viabilidade técnica e econômica. A refinaria terá capacidade para produzir de 150 mil a 200 mil barris por dia e cada empresa poderá refinar uma quantidade proporcional a sua participação acionária. O projeto pode ser um primeiro passo na criação da Petroamérica e a integração energética da América Latina.

 
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