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Surgente
- Gostaria que você resgatasse um pouco a história
da quebra do monopólio estatal do petróleo.
Zica: Eu tive o privilégio de junto com o movimento sindical
petroleiro, junto com a FUP, de participar ativamente do debate.
Num determinado momento tivemos a expectativa de que seria impossível
para o governo conseguir quebrar o monopólio, até
porque havia uma grande convicção de boa parte dos
parlamentares sobre o sentimento de que a Petrobras era um instrumento
do desenvolvimento nacional. Uma empresa que possibilitou a criação
de um parque nacional seja na indústria naval, seja na construção
industrial, na indústria de equipamentos, na criação
de tecnologias, além do orgulho nacional que era a reconhecida
eficiência da Petrobras em exploração em águas
profundas. Só que a votação da quebra do monopólio
acabou sendo uma das mais folgadas para o governo. Até porque
havia parlamentares que se diziam defensores do monopólio
e depois, na hora da onça beber água, acabaram votando
com o governo, numa relação que a gente sabia que
era uma relação, na verdade, de vantagens pessoais
em troca do voto.
S-Além
das conseqüências diretas para a população
(aumento da gasolina, por exemplo), quais foram as maiores impactos,
na Petrobras, após a quebra do monopólio?
Zica Num segundo momento, foi a saída da Petrobras
da lógica de uma empresa que funcionava como agência
de desenvolvimento para uma empresa com a lógica de mercado.
Aí as conseqüências foram a precarização
das relações de trabalho, com a radicalização
da terceirização, com a falta de investimentos na
formação de pessoal e nas quebra das relações
de solidariedade, principalmente. O setor petróleo é
um setor que exige do trabalhador, além do processo de confiança
na passagem de serviço, um processo de solidariedade, de
companheirismo, que a empresa vem quebrando, principalmente depois
de 95.
E o projeto que passou, que veio do governo e que vem prevalecendo
é o projeto que abriu a Petrobras, só que para a opinião
pública é como se a tivessem mantido como uma empresa
pública. No entanto, criou instrumentos que permitiu o fatiamento
da Petrobras em subsidiárias, que, ao arrepio da Constituição
(o artigo 37, inciso 19 e 20) diz que a criação de
subsidiárias só pode ser feita mediante autorização
legislativa caso a caso. No entanto, o que temos hoje já
é a entrega da REFAP para o grupo Repsol/YPF numa permuta
com a Argentina e o anunciado desmembramento da Reduc, a
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“A
Petrobras deve voltar a ser um agente de desenvolvimento nacional”
O
deputado federal Luciano Zica (PT-SP), esteve no protesto contra as demissões
em Manguinhos, na terça-feira (16/7). Ele esteve reunido com a direção
da empresa, em mais uma tentativa de reverter as demissões. Luciano Zica,
de 51 anos, ingressou na Replan em 1971 como operador. Foi fundador e
diretor do Sindicato dos Petroleiros de Campinas e Paulínia e vereador
em Campinas por dois mandatos (89 e 94). Eleito deputado federal pela
primeira vez em 1994, atualmente encontra-se em seu segundo mandato. Zica
vem se destacando na defesa dos interesses dos trabalhadores principalmente
nas questões relacionadas ao setor petróleo e à área de energia. Na mesma
terça-feira, pouco antes de voltar para Campinas, Zica falou à equipe
do Surgente. Leia íntegra na página do Sindipetro.
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próxima refinaria que eles querem entregar.
S-O movimento
sindical e os parlamentares de esquerda, na época da regulamentação
propuseram 5 anos de transição para as refinarias
privadas condicionando seus subsídios à garantia dos
postos de trabalho. Como se deu esse processo?
Zica: Na elaboração da lei que regulamentou o
setor, em 97, nós nos deparamos com o problema das refinarias
privadas, que foram impedidas no período do monopólio
de se desenvolver e ganhar escala de mercado. A proposta defendida
pelos então governadores do Rio e do Rio Grande do Sul (Marcelo
Allencar e Antônio Britto) e pelos empresários do setor
era que houvesse um período de transição de
10 anos nas mesmas condições do período do
monopólio, sem nenhuma regra específica. Eles queriam
ter a garantia do equilíbrio econômico e financeiro
deles, independente da escala e dos preços internacionais
do petróleo e quem bancaria isso seria a Petrobras, o Estado.
Nós, o então deputado Miguel Rossetto (hoje vice-governador
do RS), e a FUP, que cumpriu um papel fundamental nesse debate,
produzimos uma proposta alternativa, que era o estabelecimento de
um regime de transição que duraria 5 anos e não
10, como pretendiam, e com regras claras. A primeira delas era que
as empresas deveriam apresentar um projeto de desenvolvimento tecnológico,
de investimento de sua ampliação de sua escala. O
movimento sindical propôs uma negociação com
as empresas e com o Congresso, introduzindo a garantia de emprego
para os trabalhadores que estivessem nas refinarias, na época
da lei. Não houve consenso em torno da estabilidade mas conseguimos
aprovar um parágrafo que assegurava a manutenção
dos postos de trabalho, o que já era um avanço. No
entanto, mesmo isso tendo sido acordado entre as partes, o presidente
FHC vetou o artigo. Com isso, as empresas se sentiram à vontade
para demitir. As demissões de Manguinhos de hoje são
conseqüências diretas desse veto de Fernando Henrique
e da irresponsabilidade das empresas com o acordo construído.
Surgente:
Como você vê o papel da ANP no setor petróleo
hoje?
Zica: Quando aprovamos a lei do petróleo eu brincava
que o poder da ANP era tão grande que era necessário
colocar uma proibição constitucional de que o Presidente
da República renunciasse para assumir a gerência da
ANP. Acho que por isso ele chegou a colocar o genro como diretor-geral
da Agência... A ANP, até por omissão do governo
e do Congresso Nacional acabou legislando mais que o Congresso a
respeito do setor e cometendo muitos pecados. O acidente da P-36,
por exemplo, na minha opinião tem um forte componente da
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pressão da ANP sobre a Petrobras para colocar em produção
o campo de Roncador, onde estava situada a plataforma. Esta pressão
da ANP atropelou a pré-operação da plataforma.
Da mesma forma que ela operou licitações absolutamente
contrárias ao interesse nacional de áreas de exploração.
Ela impôs uma lógica de mercado que criou no Brasil um
mercado totalmente irregular clandestino de combustíveis. Ela
não teve capacidade de cumprir seu papel principal, o de fiscalizar.
Foi capturada pelos interesses privados e acabou criando uma política
que não teve nenhuma vantagem para o povo brasileiro. Apenas
cumpriu um papel de implantar um novo modelo para o setor petróleo
que trouxe muito prejuízo para as relações do
Brasil com suas reservas de petróleo na medida que implantou
uma exploração predatória. A tragédia
da P-36 é um grande exemplo. O principal responsável,
além da política da terceirização de mão-de-obra,
de construção de plataformas sem controle no exterior
(a P-50 tem uma trajetória parecida) tudo com vistas a atingir
a tal da auto-suficiência, um equívoco político
extraordinário, um país que tem reservas de tão
curto prazo buscar auto-suficiência.
S - Mais
dois petroleiros, como sempre terceirizados, morreram na REGAP.
Como a Petrobras, que bate tantos recordes em tecnologia convive
com tantos acidentes e vazamentos?
Zica: A convivência com esses acidentes numa empresa que
tem a tecnologia que a Petrobras tem decorre da política
de terceirização e da falta de investimento na formação
dos trabalhadores. A terceirização não estabelece
uma relação de afinidade entre o trabalhador e o equipamento
que ele trabalha, até por conta da instabilidade e da condição
diferenciada de remuneração, de treinamento, de assistência
social. No caso desse acidente da REGAP, em Betim, mostra mais uma
vez, a típica política equivocada que a Petrobras
tem adotado. Você traz, para fazer um serviço que não
é eventual, trabalhadores eventuais, que não têm
preparo, nem equipamento mas que devem ter produtividade acelerada
para garantir o lucro do atravessador e acaba, em função
da ameaça de desemprego, superando seus próprios limites
e se expondo aos riscos. No programa de governo do Lula que estamos
elaborando, definimos de forma clara que, nas atividades operacionais
ou regulares do setor petróleo, a eliminação
da terceirização, nas atividades permanentes e continuadas,
temos de garantir no quadro de pessoal os diretamente contratados
pela Petrobras que se mantenham na carreira profissional para garantir
a ligação com a atividades que exercem.
S: Existem
duas visões sobre
a Petrobras. Uma delas acha que ela
deve ser agente de desenvolvimento,
cumprindo seu papel social. Em contraponto, temos a visão
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predominante do governo e da direção da empresa que
quer a lucratividade máxima a qualquer custo. Num eventual
governo Lula, como seria vista a Petrobras?
Zica: Seria uma farsa manter a Petrobras como uma empresa estatal
com objetivos exclusivamente lucrativo e comercial, submetida às
regras do mercado. Nessa lógica do mercado, você teria
de achar natural que a Petrobras buscasse contratar a construção
de uma plataforma no exterior para economizar 4 milhões de
dólares só para atender os interesses do mercado. Hoje,
a Petrobras, como instrumento de mercado, aceita essa
política. Ou ainda, a compra de uma refinaria nos EUA ao invés
de investir na modernização do parque de refino nacional.
O que está colocado no programa do Lula é que a Petrobras
deve ser uma empresa competitiva sim, porém ela tem a obrigação
de ser um agente do desenvolvimento e de geração de
emprego e renda no Brasil. No caso da P-50, que foi contratada em
Cingapura por uma diferença de 4 milhões de dólares,
temos de fazer um balanço que 60 milhões de dólares
em salários deixam de ser pagos no Brasil por uma economia
de 4 milhões numa empresa estatal brasileira. Temos de criar
as condições para que essas obras sejam feitas no Brasil.
Da mesma forma, é inaceitável que a Petrobras compre
uma refinaria nos EUA, injete recursos lá, gere empregos e
impostos nos EUA para processar um petróleo brasileiro e que
a gente deixe de criar um pólo de desenvolvimento no nordeste
brasileiro com a criação de uma nova refinaria. No programa
do Lula, (do qual estou contribuindo na questão do petróleo/energia)
está colocada a necessidade de estudos que viabilizem a construção
de uma refinaria de petróleo no nordeste para que a Petrobras
cumpra esse papel social. E ainda o de buscar investir em fontes alternativas
que alonguem nossas reservas de petróleo. Num governo Lula,
a Petrobras será um agente de desenvolvimento da indústria
nacional da construção seja naval ou industrial de uma
forma geral. Será um agente da busca do alongamento das reservas
do petróleo a partir de fontes alternativas e complementares,
não concorrentes. Não imagino o álcool ou o diesel
concorrendo com o petróleo, mas sim como fontes complementares.
A política de privatização da Petrobras levaria
o Brasil a uma situação parecida com a da Argentina
onde as reservas, ao invés de serem alongadas, estão
sendo encurtadas porque são exploradas de forma predatória.
No governo do Lula, a Petrobras terá o papel de garantir o
suprimento de derivados no Brasil de forma competitiva sim, eficiente
sim, porém sem desrespeitar os direitos dos trabalhadores,
o meio ambiente e sem desrespeitar a necessidade de gerar empregos
no Brasil que é uma responsabilidade de todo setor produtivo
brasileiro. |
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