Página anterior
PÁGINA 4
Ir ao índice dos Surgentes

 

Surgente - Gostaria que você resgatasse um pouco a história da quebra do monopólio estatal do petróleo.
Zica:
Eu tive o privilégio de junto com o movimento sindical petroleiro, junto com a FUP, de participar ativamente do debate. Num determinado momento tivemos a expectativa de que seria impossível para o governo conseguir quebrar o monopólio, até porque havia uma grande convicção de boa parte dos parlamentares sobre o sentimento de que a Petrobras era um instrumento do desenvolvimento nacional. Uma empresa que possibilitou a criação de um parque nacional seja na indústria naval, seja na construção industrial, na indústria de equipamentos, na criação de tecnologias, além do orgulho nacional que era a reconhecida eficiência da Petrobras em exploração em águas profundas. Só que a votação da quebra do monopólio acabou sendo uma das mais folgadas para o governo. Até porque havia parlamentares que se diziam defensores do monopólio e depois, na hora da onça beber água, acabaram votando com o governo, numa relação que a gente sabia que era uma relação, na verdade, de vantagens pessoais em troca do voto.

S-Além das conseqüências diretas para a população (aumento da gasolina, por exemplo), quais foram as maiores impactos, na Petrobras, após a quebra do monopólio?
Zica –
Num segundo momento, foi a saída da Petrobras da lógica de uma empresa que funcionava como agência de desenvolvimento para uma empresa com a lógica de mercado. Aí as conseqüências foram a precarização das relações de trabalho, com a radicalização da terceirização, com a falta de investimentos na formação de pessoal e nas quebra das relações de solidariedade, principalmente. O setor petróleo é um setor que exige do trabalhador, além do processo de confiança na passagem de serviço, um processo de solidariedade, de companheirismo, que a empresa vem quebrando, principalmente depois de 95.
E o projeto que passou, que veio do governo e que vem prevalecendo é o projeto que abriu a Petrobras, só que para a opinião pública é como se a tivessem mantido como uma empresa pública. No entanto, criou instrumentos que permitiu o fatiamento da Petrobras em subsidiárias, que, ao arrepio da Constituição (o artigo 37, inciso 19 e 20) diz que a criação de subsidiárias só pode ser feita mediante autorização legislativa caso a caso. No entanto, o que temos hoje já é a entrega da REFAP para o grupo Repsol/YPF numa permuta com a Argentina e o anunciado desmembramento da Reduc, a

“A Petrobras deve voltar a ser um agente de desenvolvimento nacional”

O deputado federal Luciano Zica (PT-SP), esteve no protesto contra as demissões em Manguinhos, na terça-feira (16/7). Ele esteve reunido com a direção da empresa, em mais uma tentativa de reverter as demissões. Luciano Zica, de 51 anos, ingressou na Replan em 1971 como operador. Foi fundador e diretor do Sindicato dos Petroleiros de Campinas e Paulínia e vereador em Campinas por dois mandatos (89 e 94). Eleito deputado federal pela primeira vez em 1994, atualmente encontra-se em seu segundo mandato. Zica vem se destacando na defesa dos interesses dos trabalhadores principalmente nas questões relacionadas ao setor petróleo e à área de energia. Na mesma terça-feira, pouco antes de voltar para Campinas, Zica falou à equipe do Surgente. Leia íntegra na página do Sindipetro.

próxima refinaria que eles querem entregar.

S-O movimento sindical e os parlamentares de esquerda, na época da regulamentação propuseram 5 anos de transição para as refinarias privadas condicionando seus subsídios à garantia dos postos de trabalho. Como se deu esse processo?
Zica
: Na elaboração da lei que regulamentou o setor, em 97, nós nos deparamos com o problema das refinarias privadas, que foram impedidas no período do monopólio de se desenvolver e ganhar escala de mercado. A proposta defendida pelos então governadores do Rio e do Rio Grande do Sul (Marcelo Allencar e Antônio Britto) e pelos empresários do setor era que houvesse um período de transição de 10 anos nas mesmas condições do período do monopólio, sem nenhuma regra específica. Eles queriam ter a garantia do equilíbrio econômico e financeiro deles, independente da escala e dos preços internacionais do petróleo e quem bancaria isso seria a Petrobras, o Estado. Nós, o então deputado Miguel Rossetto (hoje vice-governador do RS), e a FUP, que cumpriu um papel fundamental nesse debate, produzimos uma proposta alternativa, que era o estabelecimento de um regime de transição que duraria 5 anos e não 10, como pretendiam, e com regras claras. A primeira delas era que as empresas deveriam apresentar um projeto de desenvolvimento tecnológico, de investimento de sua ampliação de sua escala. O movimento sindical propôs uma negociação com as empresas e com o Congresso, introduzindo a garantia de emprego para os trabalhadores que estivessem nas refinarias, na época da lei. Não houve consenso em torno da estabilidade mas conseguimos aprovar um parágrafo que assegurava a manutenção dos postos de trabalho, o que já era um avanço. No entanto, mesmo isso tendo sido acordado entre as partes, o presidente FHC vetou o artigo. Com isso, as empresas se sentiram à vontade para demitir. As demissões de Manguinhos de hoje são conseqüências diretas desse veto de Fernando Henrique e da irresponsabilidade das empresas com o acordo construído.

Surgente: Como você vê o papel da ANP no setor petróleo hoje?
Zica:
Quando aprovamos a lei do petróleo eu brincava que o poder da ANP era tão grande que era necessário colocar uma proibição constitucional de que o Presidente da República renunciasse para assumir a gerência da ANP. Acho que por isso ele chegou a colocar o genro como diretor-geral da Agência... A ANP, até por omissão do governo e do Congresso Nacional acabou legislando mais que o Congresso a respeito do setor e cometendo muitos pecados. O acidente da P-36, por exemplo, na minha opinião tem um forte componente da

pressão da ANP sobre a Petrobras para colocar em produção o campo de Roncador, onde estava situada a plataforma. Esta pressão da ANP atropelou a pré-operação da plataforma. Da mesma forma que ela operou licitações absolutamente contrárias ao interesse nacional de áreas de exploração. Ela impôs uma lógica de mercado que criou no Brasil um mercado totalmente irregular clandestino de combustíveis. Ela não teve capacidade de cumprir seu papel principal, o de fiscalizar. Foi capturada pelos interesses privados e acabou criando uma política que não teve nenhuma vantagem para o povo brasileiro. Apenas cumpriu um papel de implantar um novo modelo para o setor petróleo que trouxe muito prejuízo para as relações do Brasil com suas reservas de petróleo na medida que implantou uma exploração predatória. A tragédia da P-36 é um grande exemplo. O principal responsável, além da política da terceirização de mão-de-obra, de construção de plataformas sem controle no exterior (a P-50 tem uma trajetória parecida) tudo com vistas a atingir a tal da auto-suficiência, um equívoco político extraordinário, um país que tem reservas de tão curto prazo buscar auto-suficiência.

S - Mais dois petroleiros, como sempre terceirizados, morreram na REGAP. Como a Petrobras, que bate tantos recordes em tecnologia convive com tantos acidentes e vazamentos?
Zica:
A convivência com esses acidentes numa empresa que tem a tecnologia que a Petrobras tem decorre da política de terceirização e da falta de investimento na formação dos trabalhadores. A terceirização não estabelece uma relação de afinidade entre o trabalhador e o equipamento que ele trabalha, até por conta da instabilidade e da condição diferenciada de remuneração, de treinamento, de assistência social. No caso desse acidente da REGAP, em Betim, mostra mais uma vez, a típica política equivocada que a Petrobras tem adotado. Você traz, para fazer um serviço que não é eventual, trabalhadores eventuais, que não têm preparo, nem equipamento mas que devem ter produtividade acelerada para garantir o lucro do atravessador e acaba, em função da ameaça de desemprego, superando seus próprios limites e se expondo aos riscos. No programa de governo do Lula que estamos elaborando, definimos de forma clara que, nas atividades operacionais ou regulares do setor petróleo, a eliminação da terceirização, nas atividades permanentes e continuadas, temos de garantir no quadro de pessoal os diretamente contratados pela Petrobras que se mantenham na carreira profissional para garantir a ligação com a atividades que exercem.

S: Existem duas visões sobre a Petrobras. Uma delas acha que ela deve ser agente de desenvolvimento, cumprindo seu papel social. Em contraponto, temos a visão

predominante do governo e da direção da empresa que quer a lucratividade máxima a qualquer custo. Num eventual governo Lula, como seria vista a Petrobras?
Zica:
Seria uma farsa manter a Petrobras como uma empresa estatal com objetivos exclusivamente lucrativo e comercial, submetida às regras do mercado. Nessa lógica do mercado, você teria de achar natural que a Petrobras buscasse contratar a construção de uma plataforma no exterior para economizar 4 milhões de dólares só para atender os interesses do mercado. Hoje, a Petrobras, como “instrumento de mercado”, aceita essa política. Ou ainda, a compra de uma refinaria nos EUA ao invés de investir na modernização do parque de refino nacional. O que está colocado no programa do Lula é que a Petrobras deve ser uma empresa competitiva sim, porém ela tem a obrigação de ser um agente do desenvolvimento e de geração de emprego e renda no Brasil. No caso da P-50, que foi contratada em Cingapura por uma diferença de 4 milhões de dólares, temos de fazer um balanço que 60 milhões de dólares em salários deixam de ser pagos no Brasil por uma economia de 4 milhões numa empresa estatal brasileira. Temos de criar as condições para que essas obras sejam feitas no Brasil. Da mesma forma, é inaceitável que a Petrobras compre uma refinaria nos EUA, injete recursos lá, gere empregos e impostos nos EUA para processar um petróleo brasileiro e que a gente deixe de criar um pólo de desenvolvimento no nordeste brasileiro com a criação de uma nova refinaria. No programa do Lula, (do qual estou contribuindo na questão do petróleo/energia) está colocada a necessidade de estudos que viabilizem a construção de uma refinaria de petróleo no nordeste para que a Petrobras cumpra esse papel social. E ainda o de buscar investir em fontes alternativas que alonguem nossas reservas de petróleo. Num governo Lula, a Petrobras será um agente de desenvolvimento da indústria nacional da construção seja naval ou industrial de uma forma geral. Será um agente da busca do alongamento das reservas do petróleo a partir de fontes alternativas e complementares, não concorrentes. Não imagino o álcool ou o diesel concorrendo com o petróleo, mas sim como fontes complementares. A política de privatização da Petrobras levaria o Brasil a uma situação parecida com a da Argentina onde as reservas, ao invés de serem alongadas, estão sendo encurtadas porque são exploradas de forma predatória. No governo do Lula, a Petrobras terá o papel de garantir o suprimento de derivados no Brasil de forma competitiva sim, eficiente sim, porém sem desrespeitar os direitos dos trabalhadores, o meio ambiente e sem desrespeitar a necessidade de gerar empregos no Brasil que é uma responsabilidade de todo setor produtivo brasileiro.
Página anterior
18 a 24 DE JULHO DE 2002
Ir ao índice dos Surgentes