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A
fraude
é o capital
No que se refere à crise
das fraudes nas empresas americanas, todas as orientações
dos arautos do capitalismo (de Miriam Leitão a Alan Greenspan)
apontam para o mesmo diagnóstico: a culpa é da contabilidade
mal feita, ou seja, da Artur Andersen, a empresa de auditoria que
não sabia auditar (!), nem orientar corretamente seus clientes
americanos, entre eles, as empresas de energia Enron, Dynegy e Halliburton
e as de telecomunicações, WorldCom, Qwest e Global
Crossing. Todas, ou já abriram concordata, ou estão
prestes a fazê-lo. Os jornais chegam a apontar esse diagnóstico
como um alívio.
Se o diagnóstico estivesse certo, o mundo se livraria da
Andersen (que deve acabar fechando as portas mesmo) e a única
conseqüência seria apenas mais um monte de contadores
e auditores corruptos desempregados (nesse caso, bem feito!). Mas
o diagnóstico está errado e portanto, não podemos
seguir aliviados. Divulgar por exemplo, que a Artur Andersen e a
WorldCom não eram lados de um mesmo biscoito colados por
um recheio bilionário, interessa a quem come biscoitos tão
finos e ao mesmo tempo tão podres como esses. Interessa ao
império (leia-se os EUA) e ao seu modelo de globalização
excludente. Mas, na medida em que cresce a lista de escândalos
financeiros, o que sobe à tona é um determinado padrão
de comportamento de todo um sistema.
Elevação artificial de lucros e ativos, uso de informações
privilegiadas para negociatas em Bolsa, executivos que usam o dinheiro
de empresas para compra de imóveis pessoais... não
são fatos isolados, mas antes desmascaram a própria
natureza do capitalismo. Esse padrão é mais cruel
ainda porque nem se lembram de falar sobre o aumento do desemprego,
do arrocho salarial e da miséria no mundo. Afinal de contas,
é à custa do sacrifício de milhões de
trabalhadores no planeta que o capitalismo entra e sai
de crises como essas.
Outro padrão de comportamento intrínseco ao sistema
capitalista, em sua forma atual, é o fatiamento de empresas
estatais para a privatização e a rapinagem financeira.
Os jornais também silenciam sobre essas conseqüências.
Se estivessem dispostos a ouvir um dos petroleiros de Manguinhos
demitidos pela frieza dos números da Repsol/YPF, teriam depoimentos
significativos. A grande fraude portanto, não é das
empresas que venderam números ilusórios e quebraram.
A grande fraude é do próprio modelo: o capital que
segue vendendo a ilusão de que conseguirá um dia ser
de outro modo.
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