| violência
atinge a garotinha da cidade, atinge um cara como Tim Lopes
todo mundo começa a falar coisas que já gritávamos
há muito tempo só que ninguém quis ouvir.
S Qual a sua
opinião sobre as políticas de ações
afirmativas, a reserva de cotas para negros nas universidades,
por exemplo?
Bill - O ideal seria o reconhecimento da dívida histórica
com os descendentes africanos. Mesmo não sendo o ideal
mas sendo a única idéia, as cotas para negros
nas universidades é uma idéia genial.
S Por que o
tráfico seduz a juventude?
Bill Porque o tráfico oferece o que o jovem
quer no momento. Cerca de 90% dos soldados do tráfico
é de adolescentes. Lembro de um comercial, até
fiz a história baseada na história de um jovem
que morava aqui, o Marquinho Cabeção,
seduzido e morto pelo tráfico. O comercial da Omino
mostrava um playboy falando para a camera: Se você
não tem, você não é o cara.
A televisão faz isso de várias formas. Se você
não tem o produto tal você não é
ninguém. Nenhum comercial fala que você tem de
estudar e trabalhar para conseguir a coisa. Você tem
de ter o carro e é agora. Isso é a sedução
para o imediatismo, para o dinheiro rápido. E quem
tem pai alcóolatra, mãe que é empregada
nas casas de famílias e que não recebem educação
e formação, acaba sendo apadrinhado pelo tráfico.
Porque ele quer se sentir poderoso ainda que esse poder seja
ilusório. E quem vai convencer esse jovem que a escola
é importante? Para mim isso não é justificativa
mas é um fato.
S Você
disse que a morte de Tim Lopes só chocou a população
do asfalto, já que fatos assim fazem parte do a cotidiano
das favelas. Como sensibilizar a sociedade e a mídia
em geral para a violência que atinge as comunidades
carentes?
MV Bill Não existe forma de sensibilizar a sociedade.
Já
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usamos tudo
o que podíamos. Acho que a sociedade não está
sensibilizada mesmo com o Tim Lopes. Ela está acuada
e com medo. Mas continuam tratando a violência nas comunidades
como um problema dos outros. Enquanto isso acontecer a coisa
vai piorar até a hora que eles tiverem que se mudar porque
a violência vai estar dentro das casas deles. Hoje o que
ajuda a sustentar tudo isso são os próprios filhos
dessa sociedade, os grandes consumidores. Se querem acabar com
o tráfico não é no morro. No morro se você
plantar uma cápsula de bala na terra não vai nascer
um pé de fuzil. A arma chega pelo asfalto. Não
tem plantação de droga na favela nem fábrica
de armas. Mas os os políticos fazem lobby com as fábricas
de armas no Brasil e sancionam leis que permitem que colecionadores
de fuzil possam ter AR-15 dentro de casa, é brincadeira!
Não é possível sensibilizar e eu já
desisti dessa tarefa.
S - Então qual
é a tarefa?
Bill - A minha é agora é esperar para que eles
pensem em alguma coisa para solucionar a situação.
Transformar a morte do Tim num show para essa violência
que já acontece todo dia é demais para minha
cabeça. Lamento por ele, pela família dele.
Infelizmente ele passou a fazer parte de uma estatística
que engorda silenciosamente e que só para a gente tem
importância. Para a sociedade e para a televisão
só tem importância quando atinge um deles.
S - Quem pode fazer
mais?
Bill - Todo mundo. Você pode fazer mais, seu jornal
pode fazer mais, o fotógrafo pode fazer mais, os sindicatos
podem fazer mais. Eu posso, minha mãe, todo mundo.
Quem pode fazer muito e não faz nada, hoje é
refém da violência, tem medo de ir no shopping
e de levar sua filha na escola.
S Todos sabemos
que o tráfico é um problema antigo. Você
diz que o quadro vai continuar se o arrego
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continuar.
O que você quis dizer com isso?
Bill - Arrego nas comunidades é quando o tráfico
paga para a polícia não entrar na favela. Enquanto
isso continuar não enxergo o fim da violência.
A políciaperde a moral, o respeito e ninguém confia
na polícia. Como ser protegido por alguém que
não confiamos?
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Enquanto esse problema ficasse dentro
das comunidades era problema nosso. Hoje que a violência
atinge a garotinha da cidade, atinge um cara como Tim
Lopes todo mundo começa a falar coisas que já
gritávamos há muito tempo só que
ninguém quis ouvir. |
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S Você
também diz que Tim partiu e deixou uma missão
para o Brasil. Ou dividimos toda a riqueza que geramos ou
seremos obrigados a dividir toda a conseqüência
da miséria que é gerada. Você acredita
que podemos realmente fazer isso?
Bill Acho que sim. Mesmo perdendo a paciência
de tentar sensibilizar a sociedade e as autoridades, tenho
esperança de que tenhamos um futuro melhor, ainda que
seja as futuras gerações. Mas precisamos fazer
alguma coisa já. Meu desejo é que o brasileiro
vista a camisa do Brasil não apenas para a Copa mas
para a solidariedade. A maior parte das músicas no
Brasil fala de amor mas de amor apenas entre homem e mulher.
É preciso experimentar o amor incondicional pelo ser
humano e resgatar a solidariedade.
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