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“A sociedade está
acuada e com medo
De acordo com os dados divulgados pela ONU, em um ano, 47 mil brasileiros morreram assassinados, 87% por tiros. Na terça, dia 9, o Instituto Sou da Paz promoveu um grande ato em SP para marcar o Dia Mundial pelo Desarmamento. A morte do jornalista Tim Lopes, no Rio, provocou uma grande discussão sobre a violência no país. Problema para o qual as comunidades e lideranças comunitárias já estão cansadas de chamar a atenção. O cantor de rap MV Bill, é uma dessas pessoas (MV significa Mensageiro da Verdade). Bill é membro da Central Única das Favelas (CUFA), criada há quase dois anos para integrar as comunidades com atividades sociais e culturais. O material de suas músicas é a violência policial, o narcotráfico, a opressão que submete a juventude negra, o racismo. O cotidiano das favelas vira poesia e vídeo sempre provocando muita discussão e polêmica. Ele mora na Cidade de Deus, um conjunto habitacional com cerca de 120 mil moradores, uma favela em Jacarepaguá, bairro da zona oeste. Foi numa praça dessa comunidade que ele recebeu a equipe do Surgente para falar de seu trabalho e da violência na sociedade brasileira. Leia a íntegra da entrevista na página do Sindipetro-RJ.

 

Surgente – Por que você escolheu o rap?
MV Bill – O rap eu conheci em 88 e vi que podia falar da realidade. O ponto forte é a letra, é o questionamento. Isso foi o que me chamou mais a atenção.

S – Você diz que teve a sorte de descobrir o rap e a cultura hip hop e que mudou sua consciência por isso? A arte pode ser, de fato, um instrumento de mudança social?
MV Bill - Acho que o rap é apenas um dos vários caminhos de transformação. Eu dei graças a Deus porque foi a única coisa que eu vi que poderia me dar uma outra direção. A maioria das coisas que eu via só me levariam ao lado negativo. Eu acho que a cultura tem o poder de transformar. Morando dentro de uma comunidade, percebo que muitos jovens têm talento ou para compor, ou praticar esporte, ou desenhar ou lidar com computador. Mas não há oportunidade nem perspectiva. A arte consegue devolver a auto-estima e a possibilidade de despertar uma consciência adormecida.

S - Muita gente acha que o rap é uma coisa americanizada. Quais são as semelhanças dessa música aqui com a música americana?
Bill - Ninguém nunca questionou o rock feito pelo Barão nem o reggae feito pelo Cidade Negra. Também não são musicas criadas no Brasil. Ao contrário do que muita gente acha, o rap não foi criado nos EUA. Ele foi desenvolvido lá e eles só batizaram de “Ritmo e Poesia”- Rhythm And Poetry, em inglês. Ainda que fosse americano, existem muitas culturas absorvidas pelo Brasil e isso não deve ser impedimento para que a coisa aconteça.

S – O povo compra sua música?
MV Bill – O povo abraça minha música. Um disco, para a maioria dos artistas dura um ano. Vou para o quarto ano de trabalho com o mesmo disco. Isso tocando, fazendo palestras, discutindo a questão racial e a violência nas

universidades, nos presídios. Meu trabalho me levou à vários lugares e por isso o resultado foi o melhor possível.

S - Como está seu novo CD?
Bill - O nome dele é “Declaração de Guerra”. Nele tenho a oportunidade de ratificar alguns pensamentos e falar de coisas que ainda não falei. Ele é mais diferente de tudo o que eu já ouvi de rap no Brasil mas vai ficar na surpresa.

S – Você fez o vídeo Soldado do Morro em 1999, em que apareciam armas de verdade, traficantes de verdade e crianças armadas. Sua intenção era chamar a atenção das autoridades para o problema do tráfico. Seu objetivo foi alcançado?
Bill – Não. A cada momento em que eu vejo mais jovens entrando para o tráfico e morrendo assassinados eu sinto que vou fracassando na minha luta. Acho que meu trabalho com a música contribui mas não resolve e que o video podia fazer mais e não fez. Fui perseguido e respondo processo até hoje. Com o vídeo tivemos a oportunidade de ficar diante de um problema que crescia e que a qualquer momento ia explodir. Ia deixar de ser exclusividade das comunidades e se transformar em um problema para o asfalto. Quem poderia fazer alguma coisa deu as costas e me condenou como bandido. A situação que temos no Brasil é a situação que a gente merece. Esta mos colhendo o que plantamos no passado. E quem planta a violência colhe isso. Quem fez o vídeo falando sobre violência foi o Bill, um preto que canta rap, mora na Cidade de Deus, tem caráter meio duvidoso. Se fosse um sociólogo ou até um jornalista falando a mesma coisa todo mundo daria importância. A violência desse videoclipe estava guetificada, estava dentro das comunidades. A partir do momento que esse sangue desceu para o asfalto e começou a atingir o filho do doutor fulano de tal, da madame tal tal tal, aí sim virou problema nacional. Enquanto esse problema ficasse dentro das comunidades era problema nosso. Hoje que a

violência atinge a garotinha da cidade, atinge um cara como Tim Lopes todo mundo começa a falar coisas que já gritávamos há muito tempo só que ninguém quis ouvir.

S – Qual a sua opinião sobre as políticas de ações afirmativas, a reserva de cotas para negros nas universidades, por exemplo?
Bill - O ideal seria o reconhecimento da dívida histórica com os descendentes africanos. Mesmo não sendo o ideal mas sendo a única idéia, as cotas para negros nas universidades é uma idéia genial.

S – Por que o tráfico seduz a juventude?
Bill – Porque o tráfico oferece o que o jovem quer no momento. Cerca de 90% dos soldados do tráfico é de adolescentes. Lembro de um comercial, até fiz a história baseada na história de um jovem que morava aqui, o “Marquinho Cabeção”, seduzido e morto pelo tráfico. O comercial da Omino mostrava um playboy falando para a camera: “Se você não tem, você não é o cara.” A televisão faz isso de várias formas. Se você não tem o produto tal você não é ninguém. Nenhum comercial fala que você tem de estudar e trabalhar para conseguir a coisa. Você tem de ter o carro e é agora. Isso é a sedução para o imediatismo, para o dinheiro rápido. E quem tem pai alcóolatra, mãe que é empregada nas casas de famílias e que não recebem educação e formação, acaba sendo apadrinhado pelo tráfico. Porque ele quer se sentir poderoso ainda que esse poder seja ilusório. E quem vai convencer esse jovem que a escola é importante? Para mim isso não é justificativa mas é um fato.

S – Você disse que a morte de Tim Lopes só chocou a população do asfalto, já que fatos assim fazem parte do a cotidiano das favelas. Como sensibilizar a sociedade e a mídia em geral para a violência que atinge as comunidades carentes?
MV Bill – Não existe forma de sensibilizar a sociedade. Já

usamos tudo o que podíamos. Acho que a sociedade não está sensibilizada mesmo com o Tim Lopes. Ela está acuada e com medo. Mas continuam tratando a violência nas comunidades como um problema dos outros. Enquanto isso acontecer a coisa vai piorar até a hora que eles tiverem que se mudar porque a violência vai estar dentro das casas deles. Hoje o que ajuda a sustentar tudo isso são os próprios filhos dessa sociedade, os grandes consumidores. Se querem acabar com o tráfico não é no morro. No morro se você plantar uma cápsula de bala na terra não vai nascer um pé de fuzil. A arma chega pelo asfalto. Não tem plantação de droga na favela nem fábrica de armas. Mas os os políticos fazem lobby com as fábricas de armas no Brasil e sancionam leis que permitem que colecionadores de fuzil possam ter AR-15 dentro de casa, é brincadeira! Não é possível sensibilizar e eu já desisti dessa tarefa.

S - Então qual é a tarefa?
Bill - A minha é agora é esperar para que eles pensem em alguma coisa para solucionar a situação. Transformar a morte do Tim num show para essa violência que já acontece todo dia é demais para minha cabeça. Lamento por ele, pela família dele. Infelizmente ele passou a fazer parte de uma estatística que engorda silenciosamente e que só para a gente tem importância. Para a sociedade e para a televisão só tem importância quando atinge um deles.

S - Quem pode fazer mais?
Bill - Todo mundo. Você pode fazer mais, seu jornal pode fazer mais, o fotógrafo pode fazer mais, os sindicatos podem fazer mais. Eu posso, minha mãe, todo mundo. Quem pode fazer muito e não faz nada, hoje é refém da violência, tem medo de ir no shopping e de levar sua filha na escola.

S – Todos sabemos que o tráfico é um problema antigo. Você diz que o quadro vai continuar se o “arrego”

continuar. O que você quis dizer com isso?
Bill - Arrego nas comunidades é quando o tráfico paga para a polícia não entrar na favela. Enquanto isso continuar não enxergo o fim da violência. A políciaperde a moral, o respeito e ninguém confia na polícia. Como ser protegido por alguém que não confiamos?


Enquanto esse problema ficasse dentro das comunidades era problema nosso. Hoje que a violência atinge a garotinha da cidade, atinge um cara como Tim Lopes todo mundo começa a falar coisas que já gritávamos há muito tempo só que ninguém quis ouvir.
 
 
 

S – Você também diz que Tim partiu e deixou uma missão para o Brasil. Ou dividimos toda a riqueza que geramos ou seremos obrigados a dividir toda a conseqüência da miséria que é gerada. Você acredita que podemos realmente fazer isso?
Bill – Acho que sim. Mesmo perdendo a paciência de tentar sensibilizar a sociedade e as autoridades, tenho esperança de que tenhamos um futuro melhor, ainda que seja as futuras gerações. Mas precisamos fazer alguma coisa já. Meu desejo é que o brasileiro vista a camisa do Brasil não apenas para a Copa mas para a solidariedade. A maior parte das músicas no Brasil fala de amor mas de amor apenas entre homem e mulher. É preciso experimentar o amor incondicional pelo ser humano e resgatar a solidariedade.

 
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11 a 17 DE JUNHO A 03 DE JULHO DE 2002
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